Sumidouro dos Desvalidos
Por: Júlio César Anjos Pedro A boa noticia é que parou aquela incessante dor de dente que Pedro estava sofrendo sem parar. Caiu o último incisivo que fazia a resistência de perdurar em sua boca, cuja se materializava somente em sofrimento e que não tinha mais serventia para nada. Não há dor naquilo que não se tem. É preciso ter para doer. O dente? Não. Serve também pra qualquer coisa que o valha. Mesmo banguela, o homem estava, por um breve momento, radiante: uma dor a menos para suportar. Para quem não tem nada, isso é algo muito significativo. Então, fez o que mais sabe fazer, beber para comemorar. Pedro tinha mais coisas que o fazia lembrar, e por isso doía, o que o tempo fez questão de anestesiar. Idoso, o maltrapilho não viveu sempre na rua, pois, tinha emprego, família e um abrigo para chamar de lar. Bom contador, pai ausente, e sempre presente estava um copo ou uma garrafa de bebida alcoólica nas mãos. A sua íntima - e personalíssima - tristeza era represa...