Emendas Parlamentares
Por: Júlio César Anjos
Reagir
politicamente de forma açodada, sem fazer análise política, é burrice.
No
dia 04 de Novembro de 2021, o congresso aprovou a PEC dos precatórios e o
Auxílio Brasil. Esta matéria, polêmica, só foi aprovada porque o Arthur Lira, junto
com o Bolsonaro, liberaram emendas – jocosamente chamado de orçamento secreto,
a fim de destinar verba para o parlamentar votar a favor deste projeto em troca
de envio de recursos para a sua região. Em
tradução populista e simplória: compra de voto parlamentar para poder governar.
Agora, a pergunta que vale muito na política: tal artifício é pragmático ou imoral?
O
que é realmente imoral: sabotar a sua própria região porque tem que ser leal à
ideologia [uma pessoa ou um partido] ou não ter ideologia e com isso beneficiar
a sua região?
A
emenda é uma espécie de acupuntura orçamentaria, cujo parlamentar retira erário
da esfera federal para alocar, direto na veia, recurso para as regiões em que o
político defende no congresso. A emenda ajuda, mesmo que de maneira ínfima, a
fazer a descentralização do: “mais Brasil, menos Brasília”. É o municipalismo
em constante atuação.
Até
porque há outro sentimento popular, este sim válido, de que Brasília é um “faz
de contas” e por isto não deveria nem mesmo existir. Mas existe e assombra a
todos com regras que nem mesmo a elite consegue cumprir.
A
regra que tanto o executivo quanto o legislativo não conseguem cumprir é a pura
lógica de que ninguém nunca terá maioria para governar em uma organização
política com mais de 30 partidos. E para governar, é preciso fazer medidas que
não são transparentes como soltar emendas para o executivo conseguir obter
maioria de votos no congresso. Surge então a questão do pragmatismo.
Deste
modo, então, como resolver a questão para acabar com a compra de parlamentares com
emendas? É até simples: na estrutura, mudando o presidencialismo para o
parlamentarismo; na organização, reduzir para somente 5 partidos no congresso
nacional. Com essa mudança de estrutura e organização, a questão de compra parlamentar
acaba. Porque no parlamentarismo é preciso ter maioria para governar. Não tendo
maioria, tem que chamar novas eleições até essa maioria virar.
Mas
parece que o brasileiro, como um todo, não quer resolver esta questão pelas
vias óbvias e simples. O povo, em geral, quer fazer da questão da emenda
parlamentar como uma espécie de “dia da marmota” brasileira. É uma espécie de
disco riscado que toca uma nota só. É sempre a mesma ladainha:
É
oposição e critica a compra de votos do centrão. Elege-se. Tem que governar.
Não tem maioria. Precisa comprar o centrão. Outra oposição critica a compra do
centrão. Elege-se. Tem que governar. Não tem maioria. Precisa comprar o
centrão.... e por aí vai até o
brasileiro entender que está sendo feito de trouxa [mas até agora não entendeu –
parece que isso será eterno].
Tanto é que o Bolsonaro se elegeu dizendo que
não governaria com o centrão. Houve até frase de efeito, no passado, proferida
pelo Eduardo Bolsonaro: “quero ver se vocês vão se deixar seduzir por discurso
do Centrão ou se vão se mantiver firme e forte”; ou a musiquinha do trovador General
Heleno: “Se gritar pega centrão, não fica um meu irmão”.
A
verdade se impôs. Bolsonaro nunca teve maioria e para governar teve que compor
com o: centrão.
Hoje,
o bastião da moralidade contra o centrão é, pasmem, o PT. E se acontecer o
milagre do Lula ganhar o pleito em 2022, com certeza não terá maioria no congresso
– por causa da estrutura e organização política. E advinha qual o subterfúgio
que o Lula terá que usar, numa possível vitória presidencial, para governar? Isso
mesmo, comprar o centrão. Tcharan!!!
Agora,
veja que interessante esta questão. Alguns partidos entendem que a emenda parlamentar
passa até mesmo por questão ideológica. O PSDB, por exemplo, tem em seu
manifesto a seguinte diretriz:
Abram-se aspas.
Redefinir
o País como República Federativa, objetivando a desconcentração dos poderes, descentralização administrativa e do orçamento até o nível de municipalização das ações do Governo.
Fecham-se aspas.
O
mesmo não cabe a um PDT, por exemplo, porque o partido do Ciro Gomes é
ideológico de esquerda. É por isso que na aprovação da PEC dos Precatórios o
PDT apanhou e o PSDB, não. Para os tucanos, defender diretamente a sua região é
moralmente superior do que defender abstrações ideológicas que não resolvem as
questões de fato para as pessoas. As pessoas vivem nas cidades e não no faz de
contas de Brasília. É por isso que o PSDB não é centrão; porque, para os
tucanos, liberação de emendas
parlamentares é descentralização do orçamento. Descentralização do orçamento é
municipalismo. Municipalismo é belo e moral. É solução.
O
fato é que esta questão de comprar o centrão não mudará porque está dando certo
para os populistas ideológicos. Esquerda ou direita, tanto faz, beneficiam-se
em culpar o centrão. O certo é que no fim o eleitor achará que o culpado é o
centrão. Mas diante das questões estruturais [parlamentarismo não implantado] e
organizacionais [mais de 30 partidos], a verdade é uma só: o centrão, para a
governabilidade, é solução. Justamente porque o centrão não tem ideologia.
Além
disso, fica a questão: a esquerda irá fazer coligação com o centrão? Ou, caso
este grupo ideológico seja eleito para governar o Brasil, fará composição com o
centrão, dando cargos em ministérios e em empresas federais [Petrolão]? Conte para
este que vos escreve como será resolvida esta questão ideológica das esquerdas
que almejam governar o país após 2023.
Deste
modo, partindo pelo prisma que liberar emenda garante governabilidade, mesmo
tal artifício sendo impopular por ser erroneamente imoral [corrige uma
distorção estrutural e organizacional na política], no dia 9 de novembro de
2021 o ministro do supremo Luiz Fux irá enviar à plenária a discussão sobre as
tais “emendas secretas”. O que será decidido, diante a estrutura e organização
política caótica no Brasil, é a questão de que se o próximo presidente irá
governar ou não o país – neste sentido, não importa se será Doria, Lula, Bolsonaro
ou o ET de Varginha. A partir desta constatação, seria muito mais inteligente
se a Rosa Weber tivesse ficado na moita. Porque reagir politicamente de forma
açodada, sem fazer análise política, é burrice. A ministra do STF loira
laqueada fez caquinha.
O
STF terá que resolver este problema que deveria ser solucionado pelos políticos.
Esse é o problema em criar problema onde
não tem.
Portanto,
ou o Brasil implanta o parlamentarismo e reduz para no máximo 5 partidos para
gerar governabilidade; ou liberação de emenda parlamentar deve ser, a partir de
agora, algo belo e moral.
Ah,
o PSDB também é parlamentarista [solução].
Comprem
a pipoca porque vai ser interessante a votação do STF diante a matéria jocosamente
chamada de orçamento secreto.
***
Queridos
leitores: aguardo vocês em 2023 para cobrá-los.
***
Sobre
esta votação, o PSDB deve manter os votos que já foram dados na câmara. O PSDB,
em seu manifesto, defende descentralização orçamentária [municipalismo] e
parlamentarismo. Além disso, palavra dada é palavra cumprida.
Cumprir
a palavra porque foi acertado até mesmo com o dito: “mercado”. As bolsas caíram
porque teve partido, como o PDT, que acordou uma coisa e agora quer desonrar
este acordo. Não tem palavra. Não serve pra política.
E
quanto aos outros. Bem, eles que lutem!

Emendas Parlamentares de Júlio César Anjos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://efeitoorloff.blogspot.com.

Comentários
Postar um comentário
Comente aqui: