Oásis de Dante

Por: Júlio César Anjos

 

 

2020 - Atualmente

 

Dante é um cara legal. A verdadeira caricatura de Pangloss do Voltaire. Otimista, como todo jovem que esbanja saúde e beleza, acredita que tudo dará certo em sua vida, sem percalços porque, na sua mente, ele pode tudo.

 

Se trabalhar direitinho, o mérito fará conquistar riqueza. Se for um bom menino, Deus vai ajudar.  Na cabeça de Dante, ele nasceu pobre somente porque os pais não souberam gerar riqueza para ofertar-lhe uma vida de conforto. Deste modo, a filosofia do rapaz é que o mundo está aí para quem quiser alcançar, então basta buscar.

 

  Jovem, bonito, dinâmico, e lutador. Só o que pode pará-lo são problemas alheios aos seus esforços, como motivo de própria doença ou morte. Portanto, se não houver problema de doença ou morte nada irá pará-lo ao objetivo de conquistar sucesso em vida. O sucesso é somente questão de prazo. E o tempo mostrará que Dante está certo.

 

O otimismo é tão forte que, enquanto jovem o vigor impulsiona a inspirar-se em arriscar-se em escrever notas soltas de versos em quartetos. O poeminha chama-se: “coisas boas”.

 

Coisas boas:

 

Vou sonhar coisas boas

Acordar no meu véu

Longe das más escolhas

Mais perto do bom céu

 

Vou talhar todas as nuvens

Com o formão do esplendor

E criar vários totens

Do mais belo candor

 

Ao criar um portal

Estampar o desejo

Para com um simples beijo

Expurgar todo o mal

 

E voar para o porvir

Marejar até secar

Feliz ao chorar de rir

Com alguém para amar

 

***

2050 – 30 Anos Depois

 

A vida lecionou e Dante aprendeu a lição.

 

Dante prometeu para ele mesmo que só seria parado por dois motivos: morte ou doença. Mas há um terceiro fator, não previsto por ele, que é pior que os outros dois mencionados: a tortura da morte em vida; da junção entre o suicídio econômico e a eutanásia social. Ser falido e rejeitado é pior que estar doente ou morrer.

 

Porque a doença não se escolhe e a morte é inevitável, mas o fracasso, o fracasso é cruel. Porque o mérito dá a falsa sensação que o caminho para não realizar o insucesso pode ser escolhido e evitado.

 

E veja que irônico: quando se fracassa perde-se tudo. E não tendo nada, espera-se somente como futuro a doença precedida da morte ou a morte abreviando a vida de uma vez.

 

E a lição que fica é  que os obstáculos da vida impõem que o fracassado seja parado à força.

 

Dante descobriu que navegar é preciso, mas viver não é preciso. E a palavra preciso estabelecida pelo poeta não significa precisar [necessário], mas precisão [exato]. Navegar precisa de precisão [bussola, cartografia e etc], já a vida não tem instrumento de medição. E, portanto, o mérito não existe porque viver é caótico [não tem como precisar]. Todo mundo para obter sucesso precisa até mesmo de sorte.

 

O homem que já fora um grande otimista e entusiasta na juventude, ao ter visto os seus planos de sucesso naufragarem porque viver é caótico, antes de subir na banqueta para se pendurar na corda, desgastado por enfrentar com insucesso os percalços da vida, faz um poema de despedida. O poema chama-se: Aterrissar para a morte”.

 

Aterrissar para a morte:

 

Vou sofrer pesadelos

Acordar nos esgotos

Longe dos bons esmeros

Mais perto dos mortos

 

Vou talhar todos os lixos

Com o formão que escorraça

E criar vários nichos

Da mais perversa desgraça

 

Ao criar uma cripta

Estampar a derrota

Com uma baixa nota

Reprovar nesta vida

 

E aterrissar para a morte

Resignar até calar

Triste em aceitar

A própria falta de sorte

 ***

 

O Brasil é o eterno “país do futuro” que busca incessantemente encontrar o paraíso de um Oásis em meio ao deserto. Mas o fato é que tudo isso não passa de uma miragem criada pela tapeação da mente. O único futuro é somente ver as folhas do calendário cair para observar que nada irá mudar de fato.

 

Quem escreveu o livro: “O Brasil país do futuro” cometeu suicídio.

 

O Brasil é o Oásis de Dante.


***

Nada Surpreende.


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