SoDem

Por: Júlio César Anjos


Chamam-me de SoDem. Esse apelido dado pelos amigos e familiares se dá pela abreviação do meu nome: Sostenes Demostenes. Meu pai é religioso e apreciador de filosofia; e aí já viu, né?

Eu sou um brasileiro médio, assim como você. E sabe de uma coisa? Eu ando muito triste sobre o rumo que a política anda tomando. Todo dia é a mesma ladainha: ofensa generalizada, polarização sem noção e gritaria sem razão. Não há perspectiva nem de curto prazo mais, quem dirá de uma improvável prosperidade futura. A classe política brasileira deteriorou-se de tal modo que tudo se junta e mistura ao mesmo tempo. Ninguém consegue mais apontar uma alternativa plausível e tudo se encaminha para a mesmice de sempre.  O país todo é empurrado para a involução.

Com essa onda de Coronavírus, então, é que tudo ficou bugado de vez.

Para você ter uma ideia, eu tenho uma afinidade pelo nacionalismo. Amar a pátria, gostar das coisas da terra querida. Orgulho de pertencer a uma região em que a gente tem mais semelhanças que diferenças. A gente até assiste jogo da seleção, mesmo o time não contagiando como poderia e deveria a contento. É um amor que vem de nascença e é difícil de acabar.

Mas com essa onda de mortes com a pandemia, um grupo de pessoas que se autoproclama mais nacionalista que as outras, a claque propõe como alternativa política que os brasileiros se infectem com a doença e morram para que a economia não pare de funcionar. Nacionalistas sem comiseração, que, sem compaixão, perderam a lógica verdadeira do nacionalismo: servir e proteger o seu próprio povo, a sua própria nação. Eu sou do tipo de nacionalista que faz até um ritual para dobrar a bandeira nacional. Já essa gente faz da bandeira do Brasil um mero pano de chão.

Essas atitudes fazem com que eu seja e não seja nacionalista ao mesmo tempo.

E nesses tempos difíceis, sendo pobre, tenho que trabalhar - até porque não sou grupo de risco e labuto em área essencial. Não dá para ficar parado, mesmo os políticos pedindo resguardos para ficar em casa, porque a movimentação dos boletos não irão por mágica cessar. Gosto de ser trabalhador. Tenho orgulho em conseguir meu próprio sustento sem precisar de ninguém. Acredito que a nação só será próspera quando ela respeitar o trabalhador ao ponto de valorizá-lo por gerar riqueza e conforto para toda a sociedade. O trabalhador é muito importante para a nação.

Mas vendo certas atitudes mesquinhas por parte de líderes de classes trabalhistas que nesse momento querem fazer chantagem ao botar todo o país refém dos próprios interesses, o encanto em ser trabalhador se quebra por decepção. Caminhoneiros querendo fazer greve só para poder derrubar político A ou B só mostra a real motivação da classe que não está nem aí para os outros trabalhadores. Porque no final quem sofre é o mais pobre. E se trabalhador não salva trabalhador, aí mesmo que tudo vai para o brejo de vez. É impressionante como poucos e maus trabalhadores podem contaminar a bandeira trabalhista inteira. É muito triste isso.
   
É por isso que essas atitudes fazem com que eu seja e não seja trabalhista ao mesmo tempo.

Como o mundo parece estar de ponta-cabeça, devido esse problema de Coronavírus, só resta buscar refugio ao ir rezar. Sou católico porque acredito na santíssima trindade do pai, filho e espírito santo. Cristo não só morreu para nos salvar, mas também para dedicar as sábias palavras para que a humanidade pudesse agir e praticar atos benevolentes. Amar o próximo, saber perdoar e, o mais importante, se colocar no lugar dos desafortunados e repartir o pão, tais doutrinas me fazem ser cristão por devoção.

Mas a ganancia incutida em alguns líderes religiosos de congregações evangélicas assombrou a mim e a todos ao ver a continuidade do comércio da fé bem no cataclismo da pandemia, fazendo o pastor ser uma pessoa sem piedade com os seus seguidores, não querendo parar com as atividades no ápice do Coronavírus. Teve até pastor fazendo culto on-line e pedindo dizimo por transação virtual. E desde quando Deus cobra pedágio para praticar o bem para os seus filhos? A cara de pau de alguns pastores fez-me ter certa decepção com o movimento religioso em geral.

Justamente por isso que essas atitudes fazem com que eu seja e não seja religioso ao mesmo tempo.

E em casa, a patroa fica em “quarentena” comigo. Porque a rotina agora, para colaborar com todos, é da casa para o trabalho e do trabalha para a casa. Poucos sabem, mas me apaixonei por minha esposa por ela ser progressista. E tornei-me progressista também. Afinal, os progressistas defendem as minorias, a igualdade de gênero e o avanço social para que a sociedade seja cada vez melhor. É uma demanda justa.

Mas essa categoria política tem um problema terrível: sempre joga qualquer debate no fla-flu entre gay x hétero, homem x mulher, branco x negro, rico x pobre. E ao estarem alheios aos acontecimentos reais que surgem nas vidas das pessoas, como no caso desta pandemia mortal, tal grupo acha que há uma dívida histórica com tais representações e por isso essa bandeira tem que ser uma espécie de vaca sagrada, em que não se pode criticar nem bater de frente.  Isso torna o ambiente tóxico e o grupo torna-se inútil em resolver questões importantes da sociedade que são periféricas a essas amenidades alheias ao país. E deste modo, já não gosto tanto do movimento progressista como gostava quando conheci a minha esposa. Minha esposa reconhece esse problema e também está se afastando do movimento progressista.

E, como sabido, essas atitudes fazem com que eu seja e não seja progressista ao mesmo tempo.

A conclusão em que cheguei a ser Nacionalista, trabalhista, religioso e progressista é: que sou tudo isso e nada disso ao mesmo tempo.

Meu apelido é SoDem. Que por coincidência é a mesma abreviação de acrônimo de Social Democrata. O Social Democrata também é nacionalista, trabalhista, religioso e progressista. Eles também são tudo isso e nada disso ao mesmo tempo.

A Social Democracia não conquista adepto por simpatia, mas por política racional. E não faz com que as pessoas façam um alinhamento automático por causa de sentimentalismo barato. Acho que todos nós somos SoDem. Só não descobrimos isso ainda.

Ser tucano é ser tudo isso e nada disso ao mesmo tempo. Legal.
   

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