A Questão Imobiliária

Por: Júlio César Anjos

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“Muita casa sem gente, muita gente sem casa!”, a frase verdadeira e até mesmo sentimentalista faz com que a pessoa mais distraída em assuntos sociais tenha como solução colocar os desabrigados nas residências desocupadas, o que seria teoricamente até simples a fazer.

Se a linha de defesa de colocar desabrigado em residência desocupada fosse só de natureza econômica, por desapropriação de propriedade privada, e/ou somente de vontade política, essa condição seria facilmente quebrada e a questão imobiliária poderia ser resolvida de maneira popular: colocar na casa abandonada o sem teto e sem condição. O problema é que esta situação imobiliária também tem um impeditivo causado pela própria sociedade, mais precisamente por sentimento vicioso do egoísmo, tão disseminado e cimentado no Estado Capitalista em geral.

E justamente por ser um problema de sentimento social, tal agravo é difícil de resolver.

Na sociedade, há vários tipos de interessados sobre a questão imobiliária: os pobres [sem teto, preso, e favelado], classe média baixa [inquilino, mutuário e/ou dono de imóvel de baixo custo]; classe média [proprietário de um imóvel e investidor da área]; classe média alta: [dono de várias propriedades (casa na cidade e no campo ou praia)]; elite [dono de mansões, galpões, latifúndios e etc (dentro ou fora do país)].

Segundo o levantamento estatístico do noticiário nacional, o Brasil tem 6,9 milhões de famílias sem casa e 6 milhões de imóveis vazios, o que determina uma condição de uma residência por família, caso dê para alojar os desabrigados nestes abrigos desocupados. Até os dados estatísticos parecem mostrar a facilidade em dar uma residência para quem necessita.

O problema é que a sociedade capitalista tem como pilar a análise comparativa social. Se o vizinho comprou carro zero km, então outros vizinhos começam a se mexer para acompanhar o padrão de consumo que fora modificado no seu raio comunitário, ou seja, os vizinhos também terão que trocar de carro por pressão de status social. Se a classe média faz esforço para mudar de patamar e mesmo assim não consegue o intento, esta classe ao menos olha para os pobres e fica aliviada de ter mais condição que uma parte significativa de miseráveis na população. E se o pobre está numa pindaíba desgraçada, ao menos se compara a um mendigo ou algum conhecido preso em um depósito de gente e dá “graças a Deus” por ter pelo menos liberdade, saúde e algumas condições sociais [mesmo que essas condições não seja nada].

A partir deste ponto, o pobre olha para o mendigo, pela análise comparativa egoísta de estado capitalista, e fica aliviado por ter pelo menos o cafofo e uma família; o sujeito classe média anestesia a sua vida sufocante ao observar a condição degradante do pobre; o cidadão da classe média alta fica orgulhoso em ver que está acima da classe média porque está prosperando, apesar de ser menos rico que a elite; e a elite domina tudo neste estado capitalista porque é o próprio sistema que mantém esse engessamento imobiliário, o que faz não haver revolução sangrenta nem importunação sobre a desigualdade social de maneira geral na sociedade, fazendo o elitista ter/manter o poder.

Mas não é só a questão de comportamento que cria essa barreira de problema imobiliário. A questão econômica também conta. Ao simular a condição de pegar todas as residências desocupadas para dar para famílias sem casas, essa atitude geraria situações das mais variadas.

Pela análise comparativa, só que agora pela perspectiva econômica, o pobre aumentaria o seu padrão ao igualar-se ao sujeito de classe média. O cidadão de classe média que fosse inquilino ou mutuário se sentiria, com razão, lesado porque enquanto está pagando para morar, tem gente morando sem pagar. Isso faria com que a classe média pedisse compensação.

E continuando a simulação, caso o Estado arque com os custos de inquilinato e financiamento de casa própria, ao dar também estes imóveis para a classe média, sem que nesta fantasia não houvesse problemas de fisco, quem reclamaria agora de ser lesado seria a outra parte da classe média que já possuía o imóvel, além da classe média alta.

Avançando na hipótese, suponha que o estado também arque com benefícios para a classe média que já possuía imóvel próprio, ao dar uma indenização ao proprietário do imóvel [esqueça problema de fisco].

Neste momento, quem reclamaria seria a classe média alta, pois, esta classe se sentiria injustiçada, além de querer também uma indenização porque se sentiu lesada por não ganhar nada com isso. Além disso, a partir do momento que tudo se acalmasse no ramo imobiliário, ter imóvel a mais não geraria grande status social, o que mudaria a lógica de superioridade da classe média alta por ter mais imóveis que outras classes mais pobres.

E a única classe que não seria afetada com essa mudança diretamente seria a elite, não precisando de indenização ou medida compensatória por ter sido injustiçada pela causa desta socialização imobiliária. Mas afetaria a qualidade do elitista ser um semideus. Até porque a bolha imobiliária estouraria, daria problema no mercado em geral, no setor de construção e mercado especulativo de terreno e imóveis, ou seja, faria com que a mentalidade da sociedade fosse mais “comunista” do que capitalista, fazendo outras mudanças por uma revolução silenciosa vinda do próprio estado [o que nunca ocorrerá, pois, só o problema de fisco já impede esse tipo de revolução].

Isso faria com que o imóvel tivesse valor de uso ao invés de valor de troca, como já pensara Marx, o que reduziria e muito a desigualdade social geral.

Mas como tudo isso seria impossível acontecer, então até o presídio no Brasil tem que ser uma espelunca sem a menor condição de viver no local por causa da análise comparativa. Porque se o pobre e o mendigo notarem que o presidio é melhor que as suas próprias condições, não é de duvidar que as classes mais pobres cometessem até crimes só para ter dignidade para comer e morar de graça, nem que tenham que perder a liberdade por isso [sendo que da forma como vivem hoje, já não possuem liberdade nem dignidade cívica].

Deste modo, para que a sociedade capitalista não aflore esses sentimentos egoístas, o Estado dá imóvel para o desabrigado na base do conta-cotas, esporadicamente e de quando em quando, mas não em quantidade suficiente para que as classes tenham como observância uma mudança de melhora do pobre em patamar social, na questão imobiliária, para não gerar manifestação. Por isso que Cohab e outros modelos de doação de imóveis pelo estado são tímidos e precários [até os imóveis são ruins].


Além disso, até a bolha imobiliária inflada pelo governo Lula foi aceita pela sociedade brasileira porque essa inflação gerou no sentimento social do Estado capitalista uma vantagem artificial que enganou a todos com essa falsa valorização. Quem era inquilino conseguiu negociar o valor do aluguel por causa da oferta de imóveis sendo construídos; mutuário conseguiu financiar a casa própria com subsídio da Caixa; quem tinha imóvel sobrando ganhou dinheiro com essas transações, e a elite ficou contente porque gerou até estoques de imóveis porque o BNDES e outras linhas de financiamentos na esfera federal garantiam o lucro para empreiteira só para fazer a construção no modelo minha casa, minha vida..

E quem perdeu com isso? As 6,7 milhões de famílias que não possuem condições para ter a casa própria por não possuir renda, mas ficam olhando 6 milhões de imóveis em estoque vazios em posse da classe média alta e elite que preferem o engessamento deste mercado ao invés de acabar com a bolha imobiliária que incutiu na cabeça das classes que qualquer imóvel muquifo na periferia valha R$ 1 milhão.

Portanto, sabe quem faz a regra: “muita casa sem gente, muita gente sem casa” acontecer? Você.

 
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