Os Novos Deuses não Tocarão os Pés no Chão
Por: Júlio César Anjos
Nas
principais religiões abraâmicas, seja a cristã com Jesus, a muçulmana com Maomé
e a judaica com Moisés, esses homens divinos caminharam pela Terra para
propagar as mensagens divinas contidas nos seus respectivos deísmos. Homens
peregrinos que conduziram os povos a unirem-se em direção aos preceitos de
Deus. Gente como a gente, estes deuses em carne vagaram pelo mundo literalmente
ao tocarem os pés ao solo. E, por isso, entendiam que tinham que estar em contato
com a massa para poder controlar a multidão. Mas isso hoje está a mudar. Os
poderosos, com uso de alta tecnologia, serão os novos deuses justamente porque
não tocarão mais os pés nos chão. A divindade será dominar por completo o ar.
Certa
vez, um repórter perguntou a Inri Cristo o porquê do filho de Deus encarnado na
Terra viajar tanto de avião. Eis que ele respondeu: “para ficar mais perto do Pai”. Parece que esse filho de Deus
gosta muito dos bens materiais e que possui uma espécie de agorafobia por não
estar muito em contato com o povão. Mas, ao menos, Inri Cristo está certo em
relacionar o poder divino com o espaço aéreo.
Veículos
que se locomovem no espaço aéreo precisam de combustível fóssil, mais
precisamente o querosene para explodir a propulsão e o objeto assim poder se
estabilizar no ar e conseguir alçar voo. Todavia, com o avanço tecnológico indo
em direção até mesmo a veículos terrestres sendo impulsionados por outras
energias alternativas como elétrica e a base de hidrogênio, na teoria o
petróleo seria um produto que deveria perder a sua grande importância, já
que outros concorrentes indiretos de energia poderiam reduzir a demanda deste
combustível fóssil. E na teoria o petróleo, embora não renovável e se esgotando
conforme vai passando o tempo, ao menos teria o seu preço reduzido por não ser
mais “tão importante” para o dia a dia das pessoas porque já possuiria energia
para substituição.
Mas,
ao contrário do que se imaginava, a Venezuela é um país que está em conflito
justamente por ter a maior reserva de petróleo leve do mundo, o que significa
que possui muita reserva de querosene, sendo um lugar de disputa no tabuleiro
mundial. Esperava-se que energias alternativas fizessem com que o petróleo não
fosse tão requisitado ao ponto de gerar conflitos; todavia, o que acontece hoje
é exatamente o contrário: avança-se tanto em energias alternativas para
veículos terrestres quanto também para deter o controle de reservas de petróleo mundo
afora para atender espaço aéreo. Estranho, não? Na verdade não. E o motivo é
simples: o drone.
Todo
mundo já sabe que a elite possui hoje o próprio jatinho particular que pousa na
propriedade deste homem rico e poderoso na sua própria ilha paradisíaca, já
virando um ser humano diferente aos demais viventes na Terra. O Ted Turner proprietário da emissora TNT, por
exemplo, é dono de uma área bela e remota da Patagônia. Além disso, qualquer príncipe
herdeiro de hoje vive a experiência de aproveitar a riqueza natural de uma
praia remota sem ficar preso nela por falta de estrutura, sem ter a preocupação
como o que aconteceu no filme: A praia, do Leonardo Di Caprio, de sofrer
consequências por falta de estrutura. Os grandes poderosos capitalistas hoje
desfrutam do que há de bom e de melhor no globo terrestre inteiro. São donos de
tudo. E a isso não tem como negar.
Só
que a elite de hoje quer ir além destas benesses já constituídas. O 1% mais
rico do mundo quer fugir de trânsito, convivência com o povão, fugir do
problema de ter que se acotovelar com as pessoas no dia a dia frenético que
acontece nos grandes centros do mundo. E para isso é necessário que a elite
domine, de forma ampla, o céu. Para isso, há a necessidade de uso do drone como
instrumento habitual. E o drone, como sabido, necessita de querosene. Muito
querosene.
O
drone já está sendo usado comercialmente para entregar pizzas e outros tipos de
mercadorias. Só que uma coisa é o drone transportar quinquilharia; outra coisa
é transportar gente. Com gente é diferente. Então, para o drone ficar estável
no ar, com segurança, para baldear a elite rica, é preciso gastar muita
energia, ou seja, consumir muito querosene. Deste modo, por causa desta nova
modulação tecnológica, o petróleo, embora com concorrência indireta de outras
energias alternativas para outros veículos terrestres, é um combustível muito requisitado
ainda para veículos aéreos. E, por isso,
muito precioso pra quem controla as reservas de petróleo mundo afora. É por
este motivo que países donos e/ou produtores de petróleo continuam a sofrer com
essa guerra em busca ao ouro negro.
Deste
modo, a tendência é que a elite que faz parte do 1º mais rico do mundo tenha
como veículo de baldeação regional o drone como transporte aéreo ideal. Neste
conceito, o rico iria da sua casa para o escritório, e do escritório para um
restaurante, apenas fazendo baldeação aérea, aterrissando nas áreas de pouso
nos tetos, sem precisar se movimentar via terrestre para fazer locomoção.
E
assim como no filme: “High Rise” (no Brasil: No topo do poder) a película mostra
que o topo do arranha-céu constitui-se a elite, enquanto que nos andares
inferiores vivem o povão, tal desigualdade social será entre os deuses que
controlam os céus das cidades e o resto do povo que tem que se movimentar pelo
solo da terra, pelo chão.
Sem
falar que a era digital de comunicação global, ao invés de conectar os proletários e a tornar-se verdadeiro o slogan marxista: “trabalhadores do mundo inteiro,
uni-vos”; o fato é que a mídia social dispersou os homens em indivíduos com os
seus “drops” de distrações. Ou seja, se Jesus teve que ser um andarilho
contumaz para atrair multidão [mesmo que postumamente], nos dias de hoje, os
magnatas nem disso precisam para controlar o povão. Basta usar as mídias sociais.
Nesta
nova conceituação, o melhor individuo que se movimente no solo e que tenha até
mesmo, por exemplo, uma Ferrari para ostentação, ainda assim este sujeito seria considerado
um “pé-rapado” diante da elite 1% que teria drone para fazer baldeação.
Além
disso, com a capacidade que a massa tem de endeusar qualquer sujeito rico que
possa servir de idolatria, Elon Musk poderia ser, por que não?, uma espécie de
Deus por ter todo o poder e esplendor de domar os céus. E como ícones de poder,
a elite seria aclamada como os novos messias. Só que uma deidade que, ao
transportar-se pelos céus, seriam deuses que não tocariam mais os pés no chão.
O drone faria com que não houvesse necessidade mais para isto.
Até
porque, é fato a constatação, o povo está se acostumando a idolatrar os
magnatas capitalistas. Neste exato instante, por exemplo, o Trump, magnata do
ramo imobiliário é venerado nos EUA; além de que, no Brasil, o dono da Havan
(Luciano Hang) possui popularidade surreal e é cultuado por muita gente por
causa do seu mérito de ser um empresário bem sucedido. Então sim, o povo pode
endeusar magnata do grande capital e torná-lo um Deus na Terra.
Além
disso, como bem frisou David Harvey, o estado capitalista guiado pelos magnatas,
hoje em dia, tem o poder de definir o que morre e o que prospera nos biomas do
planeta. Uma orquídea negra ou um cavalo, por exemplo, só poderão existir ou
não dependendo da boa vontade dos deuses, que decidem sim ou não, quando dão importância
para algo na natureza. Aquilo que é considerado bom para a elite global se
preserva; aquilo que é considerado desnecessário destrói-se pelo abandono do
capital.
Portanto,
os novos deuses ao movimentarem-se nos céus - indo direto para os restaurantes
rooftops, baldeando para topo dos seus prédios com heliportos, além de terem
nos tetos das suas residencias locais para aterrissagem dos seus drones particulares -,
a elite não precisará mais andar no meio da multidão porque dominarão os céus pelo espectro total. Mas
para isso precisam de muito combustível derivado de petróleo como o querosene.
Por isso que ainda há guerra pelo ouro negro no globo terrestre. Com a ascensão
de popularidade dos magnatas como pop stars da nova era social, tal confluência
determina uma idolatria tão insana que parece histeria coletiva surreal. Como esses
magnatas possuem o poder de controlar as massas por adoção de popularidade,
além de decidirem o que prospera e o que se extingue na natureza, cada vez mais
a elite capitalista será considerada como a nova divindade surgida na Terra. Diante
toda essa mudança de concepção, é fácil afirmar com convicção: os novos deuses, ao contrários dos anteriores, não mais tocarão os seus pés no chão.

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