Centrão

Por: Júlio César Anjos

 Antes de saber o que é o centrão, deve-se saber quem criou este grupo específico, ou melhor, quem diluiu o poder congressual até chegar nesse patamar de bagunça eleitoral ocorrida nos dias atuais.

O marco-zero para entender o nascituro do centrão se dá após João Goulart ser destituído do poder em 1964. A Ditadura Militar deu o golpe e em 1965 instaurou o Ato Institucional 2 [AI-2] que criava somente dois partidos políticos: Arena e MDB. O MDB, como se sabe biônico, apoiava tudo o que a ditadura orientava. O bipartidarismo era só fachada para dar ar de democracia o regime autocrático militar. 

Só que o regime desgastou por causa do fracasso tanto econômico [hiperinflação] quanto social [desigualdade social] que fez com que o povo quisesse a volta da democracia.

Golbery, em 1979, aventando tal possibilidade da volta da democracia que se concretizaria pós 1985, e vendo também que o MDB teria muito poder por causa desta falsa polarização criada pela própria ditadura – a verdadeira estratégia das tesouras –, o feiticeiro resolveu diluir o poder do MDB. Foi nessa brecha, por exemplo, que o grupo extremista de esquerda chamado de Partido dos Trabalhadores [PT] surgiu em 1980.

Já na democracia, o senhor ex-presidente Fernando Henrique Cardoso [FHC] entregou o poder para o PT em 2003 com uma quantidade entre 9 a 11 partidos oficiais – o que era muito já naquela época [o governo tucano segurava a criação de novos partidos e era chamado de antidemocrático no meio político].

Agora, veja só a canalhice.

O PT, historicamente, sempre teve uma fatia considerável no quinhão eleitoral por ser uma legenda de movimento de massa [trabalhista]. O Partido dos Trabalhadores sempre teve por volta de 20% de saída na eleição presidencial. Restavam, então, diluir os 80% restantes para que o partido não perdesse eleição majoritária federal. É por isso que a eleição brasileira chegou a incrível marca de 35 partidos oficiais em exercício no Brasil, por causa dessa diluição artificial de enfraquecimento de poder opositor ao movimento proletário. [“democrático” demais]

Mas para que houvesse adesão de políticos em outras legendas, manteve-se a regra do jogo de esquema de fundo partidário independente de resultado na urna: bastava ter um partido e o dinheiro entrava na conta deste grupo em específico. Neste sistema, os partidos viraram caixa-eletrônico para quem controlasse um partido, por menor que fosse essa legenda.  Além disso, enquanto o PT sendo o maior partido ganhava mais naco financeiro no sistema eleitoral, por outro lado diluía os recursos de fundo partidário para os oposicionistas nesta lógica de 35 partidos em exercício.

Há de lembrar que o fundo partidário foi criado em 1965, no governo Castelo Branco, visando fornecer recursos a somente 2 partidos do AI-2 [Arena e MDB]. O fundo permaneceu mesmo após Golbery diluir o poder e o PT deixar chegar ao ponto da criação de 35 partidos. Virou bagunça.

Em 1965 também houve a criação do Código Eleitoral. E o caixa2 está relacionado ao artigo 350 [omitir informação aos órgãos competentes]. A Ditadura Militar no mesmo instante que criou o fundo partidário também criou a impossibilidade de fazer o tal do “caixa2”. O motivo? A Ditadura Militar subiu ao poder por meio de parlamentares alinhados à direita que se utilizaram de caixa2 no caso IPES/IBAD nas eleições anteriores [1962 pra trás]. Ou seja, quanto menos partido, mais fácil controlar corrupção e manter o poder nas mãos; quanto mais partidos existem, mais difícil o controle e mais fácil perder o poder.

 O centrão geralmente é enquadrado em corrupção por fazer caixa2 [além de pegar fundo eleitoral - o que é legal, mas é imoral (por isso, muitos partidos até devolvem o fundo eleitoral ao erário público)]. O problema é que a corrupção dos extremistas tanto da esquerda quanto da direita é pior que a do centrão, pois sempre termina em perda da democracia [Ditadura Militar (atrelado à milícia) e PT quase 14 anos no poder (atrelado ao tráfico de drogas)].  

Com isso, o PT ganhava eleição majoritária com essa diluição forçada, mas não tinha maioria no congresso para governar [porque na legislatura o poder era desmembrado entre esses 35 partidos]. A solução? Mensalão para esses partidos sem apelo ideológico. Ou seja, compra de voto parlamentar do recém-criado artificialmente centrão.

Portanto, a ditadura militar, com Golbery, diluiu tanto o poder que chegou a criar o extremista PT. E o PT diluiu tanto o poder que criou o centrão. Ou seja, a extrema-direita [Golbery] e a extrema-esquerda [José Dirceu] criaram o centrão que eles mesmos criticam como sendo o cerne e o pior grupo que pratica corrupção.

E é por isso que tanto Olavo de Carvalho [extrema-direita] quanto Nildo Ouriques [extrema-esquerda] atacam o centrão. O Ouriques chega a chamar o congresso de “covil de ladrões”. Os dois que fazem parte dos grupos que ajudaram a criar o centrão nesta regra do jogo, os dois ao mesmo tempo criam populismo barato contra a corrupção para atacar somente o centrão.

Diante disso, por causa das circunstâncias, o centrão é fenômeno que só existe no Brasil.

Porque na Europa há o parlamentarismo com poucos partidos disputando eleição e se não houver maioria chama-se novas eleições até compor coalizão.

E nos EUA há o bipartidarismo. Caso o presidente não tenha maioria no congresso, o lobby pode reverter votos para que o governo consiga governar [com o lobby, um presidente democrata, por exemplo, pode conseguir apoio de um republicano e vice-versa].

Agora, veja a agonia no país tupiniquim: se o Brasil mudasse a regra do jogo hoje para o bipartidarismo, reconstruindo um partido do governo e outro da oposição, neste momento, a maior parte dos parlamentares do centrão iria para a oposição e o governo não teria maioria pra votar qualquer coisa que seja. Não teria nem maioria simples.

Mas, felizmente, o Brasil tem uma coisa chamada de presidencialismo de coalizão. E esse fenômeno faz com que o centrão seja fisiológico e pragmático, não sendo ideológico, tendo abertura para negociar e, com isso, o presidente conseguir conquistar maioria no congresso para aprovar até mesmo emenda constitucional [2/3 ou 3/5 do congresso]. É por essas e outras que dá até para agradecer o fato do centrão existir. Se o centrão fosse ideológico, seria o fim para o governo Bolsonaro – ou qualquer outro governo que seja. É a regra do jogo que faz o centrão ser importante.

Mas Bolsonaro que até pouco tempo era do baixo clero do centrão [corporativista que vivia em legendas como PP, PRP e PTB], filiado hoje a um partido que até pouco tempo era nanico do centrão [PSL], o “mito” ganhou a eleição criticando o presidencialismo de coalizão porque incutiu no povo que a prática normal de articulação seja sinônima ao “toma lá, dá cá” de mensalão. Agora o presidente não governa porque caiu na teia da burrice que ele mesmo teceu.

Portanto, o centrão é criação de, e resposta para, extremista.

O centrão não é o vilão. O vilão sempre foi e sempre será o extremismo.

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Obs1: pergunta-se: o PSDB faz parte do centrão? Porque na última eleição, ocorrida recentemente, o PSDB era comunista – Socialista Fabiano – que fazia estratégia das tesouras para a esquerda se perpetuar no poder. O guru charlatão da Virgínia emplacou esse embuste ao enganar o povo com essa balela de “tucano comunista”. Agora, querem enganar as pessoas ao dizer que o PSDB é centrão. Enfim, como sabido, perguntar não ofende.
Pra não ficar dúvida, o PSDB é um partido “big tent” [pega-tudo] porque é utilitarista.

Obs2: No Wikipédia está listado o PMDB como o partido “pega-tudo” brasileiro, mas a verdade é que o MDB é biônico de ditadura. O PMDB é na verdade “pega-milico” ou “pega-milícia”.

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Para o restante de o mundo entender o Brasil, pois o país não é para amadores, a extrema-direita – composta por milicianos corruptos – e a extrema-esquerda – composta por traficantes corruptos – fazem polarização política e unem-se para atacar o centrão (grupo congressista não ideológico, é fisiológico e pragmático, que possui também alguns políticos corruptos em seus quadros). Se o problema do Brasil fosse só o centrão, o país estaria em melhor condição.



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