Workaholic
Por: Júlio César Anjos
Em
muitos encontros para descontração, em uma rodada de Chopp no Happy Hour com
amigos, por exemplo, aparece de quando em quando aquele sujeito sabujo que
estufa e bate no peito ao orgulhar-se ser workaholic. Isso significa, para o
entusiasta servil, ser um grande trabalhador. Afinal, o trabalho engrandece o
homem. Esta espécie que virou
predatória, ao invés de entrar em extinção, compreende o mundo sob a imaginação
que a qualidade de vida significa somente laborar. Não há nada no horizonte
deste ser do que o protótipo da caixinha padronizada de sair de casa e voltar,
fazendo do ciclo da vida apenas o trabalhar. E, por causa desta loucura em
bradar algo que é nocivo ao bem-estar do individuo social, vale notar, que se
deve chamar o workaholic pelo o que ele é: viciado. Viciado em trabalho.
Diz-se
que Workaholic é a pessoa que é viciada em trabalho ou aquele que vive pra
trabalhar ao invés de trabalhar para viver. Mas, ao contrário de que muita
gente imagina, o vício de trabalho não se trata somente da periodicidade, ou
seja, daquele que faz muitas horas-extras ou tem carga horária elevada para
executar um determinado ofício. Trata-se
também sobre a enfermidade desta doença como algo que tem a ver com a
intensidade, ou seja, a quantidade de trabalho a ser feito para um determinado
tempo laboral. Portanto, periodicidade e intensidade são sinônimas, neste
contexto, de tempo e quantidade na métrica do proletarizar.
Aos
utilitaristas, a ideia de ser um entusiasta ou orgulhoso em ser workaholic
beira ao insulto. Para esta escola de corrente filosófica, a primazia é a
qualidade de vida e o bem-estar social. Qualquer esforço que sugue as energias
de um sujeito ao ponto do seu esgotamento - burnout, stress e depressão –
trata-se de uma falha de organização social. Até mesmo o desespero em ter que
trabalhar como um doido pra não perder o emprego significa um problema grave
daquilo que é tratado tacitamente, e chamado de normal, em uma sociedade em
particular. O utilitário sabe, por estudos, que um whorkaholic pode estar
enquadrado em três características de defeitos: 1) pegar mais atribuição que
pode dar conta; 2) é incompetente e por isso improdutivo; 3) é escravo moderno.
Pegar
mais atribuição que pode dar conta é talvez o pior defeito do workaholic
padrão. Por mais que o trabalhador goste de fazer o serviço depreendido e
responsabilizado, a quantidade de trabalho asfixia o trabalhador pela
exaustão. Aceitar o acúmulo de trabalho
na quantidade que visivelmente seria para a execução de duas pessoas, ou mais,
faz o proletário chegar ao desgaste com mais facilidade, por mais workaholic
que a pessoa seja, porque é algo que causa extrema fadiga pela simples
racionalização: o ser humano não é máquina. Seja porque esse trabalhador faça o
tal “euquipe” [na teoria o trabalho deveria ser concluído em equipe, na prática
uma pessoa só faz todo o trabalho] ou porque tem medo de perder o emprego, o
fato é que essa carga de serviço além do habitual gerará exaustão.
Um
exemplo negativo dessa exaustão de trabalho pode ser visto no problema de saúde
que o japonês enfrenta hoje em dia, que é a expressão chamada: “Karoshi”, que
significa literalmente morte por excesso de trabalho. Ou seja, o japonês hoje,
por causa de uma aceleração surreal, morre de tanto trabalhar. É um vício no trabalho tão exaustivo que chega
a matar.
Já
o workaholic que é incompetente e por isso é improdutivo sofre mais porque todo
dia é um fardo ter que trabalhar. Esse tipo de viciado é ineficiente e por isso
trabalha em dobro pelo fato de não saber fazer direito a ação laboral – e não
por causa da quantidade de serviço em si. Aqui aparece o cidadão que faz
retrabalho porque erra demais, que mantem o verniz de normalidade mesmo sendo
inapto ao serviço porque não quer perder o emprego ou porque acha que esse
formato de execução frenética, que é feita de forma errada pelo próprio
trabalhador, seja até algo normal. Um sujeito sadio pediria demissão deste
circulo vicioso de aumento de trabalho causado pela improdutividade. Já o
workaholic convicto irá até vibrar porque ao menos executa o trabalho aos
trancos e barrancos.
E
por fim, o mais triste de todos é o fato do workaholic sujeitar-se aceitar
todos os transtornos porque senão perde o emprego. É um viciado em trabalho por
problema alheio ao seu controle. Esse é o escravo moderno, que sofre de assédio
moral - que é amplamente amparado pelo assédio social – porque senão o
resultado é desemprego. O workaholic escravo moderno tem que fingir estar feliz
porque a sociedade não é sadia e o emprego não dá qualidade de bem-estar social
– mas tem que pagar as contas porque o desemprego está grande e os boletos não
cessam em parar. Sorria, você tem um emprego!
Uma
sociedade com organização social saudável, que prima pela qualidade de vida e
bem estar social do coletivo, o whorkaholic existiria somente no sentido de
fazer hora-extra para, em curtos períodos [isso significa que a hora-extra não
poderia ser o “novo normal”] conseguir obter ganhos maiores para adquirir bens
materiais. Neste cenário, até faz sentido ter orgulho de ser trabalhador. Caso
contrário, com uma sociedade decadente, que não prima pela qualidade de vida, o
whorkaholic não tem com o que se orgulhar.
Para
os utilitaristas, o padrão laboral perfeito deve ter um período laboral
suficiente [período integral de 6 horas por dia, de segunda a sexta]; com uma
carga de trabalho suportável ao relógio e ao calendário semanal, além de
trabalhadores eficientes, que gostam do que fazem, e qualificados para executar
o serviço de forma salutar. Neste padrão de qualidade de vida e bem-estar
social, o workaholic some, nem precisa se orgulhar.
Portanto,
a espécie workaholic na fauna laboral é considerada exótica para o utilitarista
que visa qualidade de vida e bem-estar social. Deveria ser extinta; mas parece
que está a ser predominante. Há
desarranjo na natureza de forma predatória. Ser workaholic não é o problema,
desde que esse viciado seja usuário casual e que no fim o vício resulte em algo
positivo. Caso contrário, virar burro-de-carga de trabalho, sem ter condições
para auferir eficácia e eficiência na finalização do serviço, prejudicando a
todos no processo [desde o patrão até os colegas de trabalho], tendo com isso
desgastes que geram até problemas de saúde ao individuo, este modelo, com
certeza, não pode ser considerado normal nem para os utilitaristas nem a
ninguém que busque a felicidade como algo alcançar. O workaholic é um doente social.

Workaholic de Júlio César Anjos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em https://efeitoorloff.blogspot.com.

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