Acidentes

Por: Júlio César Anjos

Um sujeito que gozou e aproveitou de tudo na vida olha para o passado e contempla o caminho percorrido. Embora tenha enveredado pelas linhas propriamente escolhidas, talvez esta pessoa não tivesse definido certas veredas, o que poderia mudar totalmente o resultado pretendido. Já outro individuo que queria ser bem-sucedido, fez de tudo em busca deste resultado em vida, carece de sorte por ter optado trilhar por outras trilhas, tendo como o esperado somente o fracasso a realizar. Então o que define o resultado positivo ou negativo na jornada da vida? Os acidentes.

É exceção ter a vida totalmente planejada, executada, e realizada com uma determinação planificada de sucesso. Isso é raro até mesmo entre filhos de gente abastada, pois este ente até deseja ser um músico famoso, mas não sabe cantar; ou um grande escritor que não sabe escrever. Por mais que se tenham todas as condições possíveis, este sujeito fracassará porque não tem o dom natural da vocação. No máximo poderá ser um escritor ou cantor medíocre forçado a ter sucesso nos respectivos ramos. Ou seja, por incrível que pareça, é plausível dizer que o dinheiro não compra tudo.

Deste modo, então, a esmagadora maioria contempla pessoas que possuem percalços no caminho, sendo que tais entraves determinam o sucesso ou fracasso de um ser que queria ser bem-sucedido. Neste caso, a luta é diária e envolve várias frentes, várias ramificações que podem fazer o individuo se perder. Escolhas erradas, desistência, azar são obstáculos não planejados nem previstos que forçam o sujeito a errar ou a abdicar.

Muitas teorias são vendidas como soluções como esforçar-se mais, meritocracia, aprimoramentos como basilares que fazem o sujeito prosperar. Outras situações são aquelas que se recorrem a escritos de autoajuda que são pensamentos positivos para tapear as reais condições que determinam uma vitória ou derrota naquilo que se quer conquistar em vida. Tudo balela porque a vida não tem um traçado retilíneo nem manual de instruções para se guiar.

Porque a realidade é totalmente antagônica à alegoria positivista. Uma adolescente que, por descuido, engravida e, não podendo abortar, aborta o próprio futuro porque terá que se concentrar no trabalho porque terá que dedicar tempo e responsabilidade a uma criança gerada porque concebeu uma vida. Ou então um sujeito pobre que tem que começar a trabalhar cedo para ajudar na renda da família, e, com isso, fica sem tempo para concentrar-se naquilo que mais poderia fazer sucesso. E também uma pessoa que se dedica de corpo e alma em fazer alguma coisa dar certo, focado só naquilo, mas situações extraordinárias impedem que o sonho seja realizado, como, por exemplo, algum aspecto político e legal que também abortam a possibilidade de conquistar sucesso.

Além disso, o sistema criado - de animal gregário em competição - não parará esse funcionamento que abastece ao alimentar a abelha-rainha só porque uma pessoa ficou doente ou sofreu acidente de qualquer natureza, sendo que nestes casos é capaz destes sujeitos marginalizados serem descartados por não prestarem mais. Na vida real, um acidente de problema de saúde poderá causar descarte humano via marginalização.

A propaganda de estrutura social força a sociedade e acreditar em meritocracia, mas, no sistema de concorrência dentro de uma simples empresa, por exemplo, há conchavo, puxada de tapete, puxação de saco e até assédio sexual – considerado até estupro – para se obter o que deseja: a ascensão profissional. Então o mundo não é tão doce e dócil como se imagina. Todos estes entraves são acidentes causados pelo dia-a-dia que impedem uma pessoa honesta, que não apele a artifícios imorais, de obter a vitória pelo mérito profissional.

Não é a dialética marxista tampouco a liberdade econômica e social que determinam o sucesso de alguém. Problemas que são de caráter pessoalíssimo e de natureza vocacional também impedem uma pessoa de concretizar o que desejaria. Além disso, lutas diversas - em várias frentes, seja pelo âmbito pessoal ou coletivo -, fazem com que o simples sistema meritório seja considerado uma caricatura de autoajuda e de embromação. Até porque muito que o mérito tenta convencer na teoria não se embasa na realidade.

E, para infortúnio geral da verdade, às vezes o sucesso de uma pessoa pode ser determinado por somente questão de sorte de estar no lugar certo e na hora certa. Como, por exemplo, ser o pior corredor e ainda assim ganhar uma competição porque todos os outros concorrentes caíram. O acidente dos outros provocaram o sucesso deste ente preservado, mesmo não tendo competência para a realização da vitória. Ganha-se o prêmio mesmo não sendo o melhor entre os envolvidos.

Há também a predestinação, fé que muitas pessoas gostam de professar. Este conceito está embasado no sentido de que tudo está escrito e o que é pra ser será. Mas esse conceito ignora que é preciso de esforço pra conquistar os objetivos, além de que existe a lei de Murphy, que diz que: se algo pode dar errado, dará. Neste caso, a expressão que diz: “o único lugar em que o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” se faz verdadeiro.

Portanto, o que determina a trajetória em vida são os acidentes. Não há padrão, guia ou manual de instrução para buscar o sucesso pretendido. Uma pessoa pode se matar de estudar e trabalhar e perder qualquer posto por causa de conchavo ou política. Problema de saúde, de tragédias ou escolhas erradas também impede a conquista do mérito. Pequenos embates diários, seja individual ou coletivo, fazem mostrar que a busca do objetivo seja algo muito difícil de realizar. Problemas de falta de vocação ou escolhas erradas também determinam um fracasso em execução. E os caminhos a trilhar possuem muitos entraves que abortam as chances de galgar a vitória por ter perdido alguma coisa no caminho. Por causa de todos estes acidentes, o sujeito não pode se sentir culpado por aquilo que não pode controlador.  

Acidentes.

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obs: O roteiro da morte do Feliciano, da novela "O Sétimo Guardião", é parecido com o final do conto escrito por mim, texto publicado no dia 14 de março de 219, com o nome da obra intitulada: "Sumidouro dos Desvalidos".
O conto chama-se "Pedro".
Só estou comentando para que, no futuro, não haja a inversão de provas, ao dizerem que eu plagiei a novela.
Que fique o registro.



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