O GAP da Desigualdade só Aumenta

Por: Júlio César Anjos

Se as monarquias absolutistas tivessem a tecnologia de comunicação de massa existente do século XXI, os Reis convenceriam todos os seus escravos ou servos de que os desafortunados da época desfrutavam de qualidade de vida, pois os intelectuais dos baronatos diriam aos servos e os escravos que tais entes possuem melhores condições sociais - por terem abrigo, comida, e roupa em local específico - do que os líderes tribais nômades primitivos das civilizações paleolíticas.

É essa lógica de análise comparativa e raciocínio lógico que os liberais convencem os pobres de hoje a aderirem o Sistema Capitalista por adoção, ao dizerem que: “o pobre de hoje desfruta de uma qualidade de vida muito melhor que os Reis da idade-média”.

Apesar de ser verdadeira a comparação de que muitos pobres, nem todos, possuem maior qualidade de vida que os reis da idade-média, o fato é que a elite atual tem uma variável de benesses sem parâmetro e sem precedentes na história mundial.

O problema é que a análise comparativa do: pretérito x presente, visto que a tecnologia evolui e melhora a qualidade de vida, sempre dará ganho ao presente. Em outras palavras, não dá pra comparar o passado com o presente porque o momento atual sempre vencerá o pretérito. Fazer tal comparativo é falsear a realidade.

O certo, então, é comparar a organização social de cada época pelo GAP da desigualdade social entre suas classes. Exemplos: líder tribal x outros nômades [era paleolítica]; escravo x Arcontado [civilização antiga]; servo x fidalguia [idade-média]; proletário x burguesia [era moderna]; e pobre x elite [era atual]. E a conclusão a que se chega é que: o GAP da desigualdade social só aumenta.

Porque o pobre desempregado e sem assistência  de hoje é comparável aos tempos antigos ao nômade que foi banido do seu grupo; ou o escravo e o servo que foram exilados a viverem na floresta em condições primitivas; ou o proletário que vivia em situação degradante em cottages urbanas.

Ora, se ainda há esse banimento de acesso a bens pelas classes inferiores, enquanto que as classes superiores só possuem benesses, é obvio que o GAP da desigualdade só aumenta porque o acesso a tudo que há de bom e de melhor, no que diz respeito ao leque das oportunidades, sempre estarão disponíveis aos ricos. Enquanto que o pobre desempregado e sem assistência social é marginalizado em tudo.

Era esse tipo de visão que fez o Marx, no livro: o Capital, sugerir a ideia de que o sistema de tributação [e o retorno deste imposto para o povo] na escravidão e servidão fosse melhor do que os tributos ocultados na era proletária. Exemplo: na escravidão ao menos o escravo via o retorno da tributação porque tinha comida, abrigo, e alimento; na servidão, no regime feudal, o servo via que a tributação era paga trabalhando alguns dias nas terras do senhorio; mas no sistema proletário era diferente, a tributação era de “igualdade tributária” – que só recolhia impostos e não tinha assistencialismo algum, em que o povo não via o retorno do tributo – o que acontece até hoje.

Voltando ao assunto, o pobre desempregado e sem assistência nenhuma do século XXI é torturado, dia após dia, pelo “Suplício de Tântalo” atual: Tudo vê, mas nada pode desfrutar.  E para Amartya Sen, liberdade é “oportunidade substantiva” [acesso a bens materiais e serviços]. Pois, sem tais acessos, por mais que a pessoa seja livre, ela estará privada de tudo.

Num passado não muito distante, o único veículo terrestre de locomoção humana era a charrete. Então, por causa deste problema de locomoção, além do transporte marítimo ser muito perigoso, os Reis, geralmente, viviam a vida inteira aprisionados em seus palacetes, não fugindo para muito longe do seu raio social. A vida dos monarcas eram voltados às situações em seu entorno, não fazendo grandes viagens mundo afora. Ou seja, tirando a parte de conforto de residência, o pobre e o rico ficavam confinados às possibilidades ao seu redor.

Hoje, o pobre desempregado e sem assistência continua confinado na sua comunidade, pois não possui nem vale-transporte e nem passaporte tem – pobre não anda de avião não, como muitos acreditam na mentira de Lula -, enquanto que os ricos podem pegar o seu jatinho particular para fazer baldeação a negócios, ou passear em uma ilha paradisíaca, afastada de tudo, só para desfrutar da vida ou fazer um entretenimento de ocasião.

Na questão medicinal, há ainda uma curiosidade que fez, em certo tempo, o pobre ter melhor qualidade de vida que Rei. Na idade média, enquanto que o monarca se tratava pela ciência, sendo torturado com sanguessuga, por exemplo, o desafortunado tentava melhorar a saúde com erva medicinal, fruto de crendice popular. A igreja, ao ver que não é só Deus que cura, tratou de mudar a mentalidade popular ao instruir que homem que mexia com erva era considerado feiticeiro e mulher era considerada bruxa.   

Hoje, enquanto que o rico pode fazer turismo médico, em algum centro de medicina mais avançado em qualquer lugar do mundo; o pobre desempregado e sem assistência tem que rezar para não ficar gravemente doente, pois não tem condição de arcar um custo de saúde que, em pleno século XXI continua a ser proibitivo para uma parte grande da população. Esse tipo de situação referenda aquela anedota conhecida: “um homem pergunta: - qual é o seu plano de saúde? E o outro responde: - o meu plano é não ficar doente”.

E, por fim, o último exemplo: lazer.  O lazer, nos tempos antigos, era bem escasso. Enquanto que os ricos tinham como entretenimento monótonas festas luxuosas, além dos esportes chatos como: o turfe, o golfe e o xadrez; os pobres desfrutavam de esportes coletivos e festas regadas de muita bebida alcoólica e fuzarca geral [é só lembrar que no Titanic, a festa que acontecia onde estava o pobre Jack era mais legal do que a confraternização de rico no convés que ficava a Rose, na parte de cima do navio].

Hoje, até o futebol, esporte que por muito tempo foi de caráter do povão, está glamourizado e acontece até a seguinte situação: o pobre não consegue comprar um ingresso para assistir o Timão [Corinthians], enquanto que os ricos fazem deste esporte uma possibilidade de negócios, além de comprar camarotes, expulsando, com ingressos caros, o povão.

No Brasil, há atualmente 12 milhões de desempregados que não possuem assistência social. Se contar que há ainda de colocar desalentado e subemprego, a conta aumenta ainda mais. Esse grupo sensível da sociedade é induzido a acreditar que vive melhor que Reis da idade-média, sendo que em muitos casos essa classe não possui saneamento básico, nem lazer, nem qualidade de vida, e trabalha de bico somente para sobreviver – comer, pagar contas e beber uma cerveja pra ver se consegue se entorpecer da realidade sufocante.

O pobre desempregado sem assistência que mora em favela tem um saneamento básico próximo ao dos que existiam na época da grande peste negra, ou seja, não tem saneamento e por isso tem qualidade de vida igual ao medieval; não tem acesso a bens de primeira necessidade de forma fácil, sofrendo como um nômade predatório da era paleolítica; não tem ascensão social, ficando muito próximo de um tipo de escravidão ou servidão; e também não possui qualidades como ter acesso a consumo de entretenimentos [que vão desde aderir a uma associação esportiva, conseguir ser mensalista de um streaming, ou até conseguir tomar um simples sorvete na praia], o que mostra o pobre de hoje ser muito próximo ao proletário morador de cottages do período pré-capitalista.

Talvez o liberal esteja enganando todo mundo, de propósito, ao confundir pobre com classe média. Mas a classe média também sempre existiu em outros tempos, sendo também diferenciados por serem melhores que os mais desafortunados em cada era, como, por exemplo, os plebeus e os clientes [este último defendido pelos patrícios] que possuíam muito mais qualidade de vida que os escravos na mesma era em questão.

 Portanto, não, o pobre [pobre mesmo] não vive hoje melhor que um Rei da idade média. Ou alguém aí está vendo pobre ter banquete, fazer festa de alto custo, além de ter uvas sendo servida na boquinha? A vida do pobre é desgraçada. Sempre foi. A diferença é que no passado a maioria dos pobres sabia, mas não a via, a desigualdade no dia-a-dia; hoje, o pobre sabe e vê a desigualdade porque a realidade e a comunicação de massa não permite esconder. Mas, para a surpresa geral, a comunicação de massa serve também para convencer que o pobre é um abençoado - mesmo não tendo acesso a nada, sendo torturado pelo Suplício de Tântalo por não ter acessos aos bens disponíveis e sendo culpado pelo próprio infortúnio por causa de uma teórica meritocracia -, pois, acredita-se enganosamente, hoje o pobre vive melhor que um monarca. E é garantido pela lógica e pela racionalização que se as monarquias absolutistas tivessem smartphones como comunicação de massa, não haveria revoluções, nem cabeças cortadas, nem a tal primavera dos povos porque o povo pobre, sofrido, seria convencido que os servos tinham mais qualidade de vida que os líderes nômades da era paleolítica. A tudo a isso, só resta resignar: o GAP da desigualdade social só aumenta.





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