Notas Sobre Aquele Outro Combustível Precioso
Por: Júlio César Anjos
Enquanto
que: por um lado o mundo anda muito distraído com a disputa ‘democrática’ no
qual os EUA embatem contra a Venezuela - que na verdade é uma fachada para o
real interesse americano, que é busca pelo combustível mais barato vindo da
área venezuelana -; por outro, há uma modulação gigante na transação sobre
aquele outro combustível precioso, mais importante que o derivado do fóssil,
que está a fazer duas potências unirem-se em acordo de negociação ao pararem
até uma guerra comercial: a comida – a que faz funcionar o corpo humano.
Neste
sentido, China faz recentemente acordo com os EUA sobre transação de soja, o
Brasil – celeiro do mundo - toma balão no setor de agronegócio, o fazendeiro
americano congratula-se em: “make america great again”, e o dragão chinês fica
contente em ter feito um acordo que cessa temporariamente até mesmo uma guerra
comercial. O problema é que essa é uma visão bem bobinha a respeito dos reais
interesses que estão por trás de tudo: o controle pela comida. Ou seja, hoje,
quem controla a comida, controla tudo porque é também base de poder.
Mas,
antes de tudo, que se recorra ao passado para compreender melhor o que virá a
seguir. Segue o fato histórico: o tempo era do período da política do café com
leite. Naquela época, quem tinha terra obtinha poder. E tanto Minas – leite –
quanto São Paulo – Café – faziam a dança das cadeiras e revezavam no uso da
faixa presidencial, o que gerava a ditadura velada de coronel. Getúlio Vargas,
ao contestar essa rotatividade de poder, dá o golpe nos fazendeiros, com a
ajuda do coturno do exército. O problema é que os fazendeiros continuavam
poderosos pela via econômica. Neste momento, Vargas asfixia os fazendeiros
também pelo dinheiro, ao trocar o 1º setor [agricultura] pelo 2º setor
[indústria], ao criar os campeões nacionais. E, também, na ditadura militar de
64 acontece o mesmo: os militares dão o golpe contra o rico fazendeiro João
Goulart. Pelo jeito, desde os tempos de Policarpo Quaresma [que também chegou
ser fazendeiro], os militares não gostam de caipira. É uma recorrência trivial.
Voltando
ao assunto, o Brasil nos últimos anos foi salvo pelo setor agropecuário, que
impediu que a crise fosse ainda maior, ao impedir que se aprofundasse o colapso ainda mais. Recordes de
exportações tanto de grãos quanto de carnes fizeram o Brasil abrir mercados no
globo todo, ao tornar-se realmente o “celeiro do mundo”. E quem entende o
mínimo de economia, sabe que: “em time que está ganhando não se mexe”. Mas
porque, então, o Ministro das Relações Exteriores criou celeuma desnecessária
para que a China chegasse ao ponto de desistir de fazer acordos com o Brasil? O
motivo é um só: Os EUA querem controlar a oferta e a demanda dos alimentos do
mundo.
Então,
para os EUA terem o controle de oferta e demanda de alimentos no mundo, há a
obrigatoriedade de asfixiar o celeiro Brasil por meio de falta de atratividade
em exportar, ao tornar as commodities custosas. E para fazer isso basta usar três
norteadores no ramo agropecuário: 1) acabar com o subsídio [Paulo Guedes já
disse que vai fazer na campanha eleitoral]; 2) a Moeda Real se valorizar [isso
acontecerá quando os investimentos voltarem com apoio dos EUA]; 3) aumento da
alíquota do imposto de exportação [além de criação de barreiras não-tarifárias
para exportar]. Tudo isso somado com improdutividade e Custo Brasil, o
agronegócio do país deixa de ser atrativo porque exportar vira algo quase que
proibitivo.
Após
fechar o celeiro do Brasil, e com os EUA enraizando a dependência da China às
commodities dos EUA, neste momento o chinês ficará na mão dos ianques porque o
país norte-americano terá o controle da oferta e demanda de alimento do
mundo. Neste momento, cada aumento do preço
da comida fará com que a China fique de joelhos, pois o calculo é simples: cada
centavo em aumento no alimento é multiplicado por bilhão – de bocas para o
chinês alimentar. E já pensou, também, se acontece uma estiagem forte? É de
fazer chinês arregalar o olho. O Chinês poderá até puxar as commodities do
Brasil, mas isso não muda o fato de que o preço será salgado daqui pra frente.
Ou
seja, a China, até ontem, comprava do Brasil as commodities que tinham
subsídios, num cenário da moeda Real desvalorizada e de uma alíquota de
impostos de exportação inexistente [cenário maravilhoso para exportar
alimentos]. O chinês se ofendeu com um chanceler boca-aberta e acabou caindo no
primeiro movimento dos ianques.
Além
disso, há também de destacar a dissonância cognitiva na política. Pois, o Bolsonaro
não era a favor do produtor de agronegócios? No discurso, o “mito” falava até
em combater índio e MST. Mas com o 1º setor da agricultura perdendo relevância
na economia nacional, índio e MST são os menores dos problemas, pois, o que
adianta querer aumentar o espaço agricultável se não vai exportar para ninguém?
A nova configuração econômica defendida por Guedes é clara neste aspecto, só
não vê quem não quer. O fato é que, por
causa de acordo de política internacional – esse governo tem que pagar a
cadeira presidencial para os EUA -, o agricultor vai penar nesta nova era que
se apresenta, assim como outros agricultores no passado penaram em outros
governos que foram sustentados por meio de apoio de militares.
Sendo
assim, o Brasil realmente deixará de ser celeiro do mundo porque exportar
alimentos não será atrativo. Mas haverá compensação. Assim como Getúlio Vargas
mudou o Brasil de 1º setor de agricultura para 2º setor de indústria, Guedes já
até disse que vai: “salvar a indústria apesar dos industriários brasileiros”. Na verdade, quem vai introduzir a mudança na
economia serão os EUA, junto com a Europa, para inibir o crescimento do dragão
chinês. Após fazer a reforma da previdência junto com outros ajustes
econômicos, o fato é que o Brasil irá galgar para a volta da industrialização e
de dinâmica de comércio. É isso ou hiperinflação e/ou inserção de ditadura
[lembrando que já há um sem-número de militares no governo Bolsonaro]. O fato é
que esse governo que entrou agora dificilmente sairá cedo.
E,
também, não é segredo pra ninguém que essa mudança econômica brasileira afetará
os estados agrícolas como os do sul. Mas justamente esses gritaram: “mito,
mito, mito”, sem parar. Se a região é tão independente assim, com certeza
saberão se virar com as novas mudanças praticadas por Guedes – que, aliás, não
enganou ninguém [ele queria acabar com o subsídio antes da eleição e também
falou que quer industrializar]. O agricultor terá que voltar a vender só no
mercado doméstico.
Portanto,
as mudanças no ramo do agronegócio no Brasil - ao extinguir os subsídios, além
de instaurar aumento na alíquota do imposto de exportação e com a moeda real
valorizando-se perante o dólar -, tais situações farão com que exportar commodities
seja algo até mesmo proibitivo por causa da carestia. O Brasil deixará de ser o
celeiro mundial. Essa decisão está alinhada com a articulação ocidental para
controlar oferta e demanda de alimentos no mundo. Após controlar preços, cada
aumento galgado em produto agrícola fará a China ter que rebolar ao perder
competitividade, ao ter que comprar o produto essencial cada vez mais caro,
porque o país asiático tem mais de um bilhão de bocas pra sustentar. E o Brasil
será compensado com esta mudança, ao receber investimentos ocidentais em outros
setores, como indústria e comércio, abrindo fronteiras para quinquilharias
gerais. Enfim, a comida realmente é uma mercadoria estratégica, é combustível
muito precioso.
***

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