A Reforma da Previdência Não é a Panaceia
Por: Júlio César Anjos
Na
mitologia grega, Panaceia é a filha do Asclépio que tem como poder o dom da
cura. Com este entendimento pela lógica mítica trazida ao popular, o termo panaceia
é assimilado como o fenômeno daquilo que pode curar todos os males. Diante
disso, há um mal no Brasil, chamado crise, no qual é preciso acabar com este
infortúnio. E uma das soluções se apresenta como reforma da previdência,
modificação considerada, por muitos entendidos, como uma panaceia para que o
país volte a ter estabilidade, crescimento e avanço tanto econômico quanto social.
Mas, será mesmo? Não é bem assim que a banda toca.
Macri
ganhou a eleição da Argentina ao ser alçado pela popularidade da direita como
uma onda cobrindo a todos pelo populismo - além de um debacle da esquerda por
desgaste natural por estar tempo demais no poder. O presidente argentino teve a
missão de fazer a reforma da previdência como contrapartida para receber o
empréstimo de socorro do FMI. Macri fez uma reforma bem ruim, mas que enganou o
fundo monetário, tendo o dinheiro repassado mesmo não havendo condições para
receber tal benefício. Resultado: Macri já está descartado nesta eleição
argentina de 2019 e muito provavelmente quem vencerá o pleito será alguém vindo
da terceira via, pois a Argentina está pior do que há quatro anos [e se Macri
vencer, a crise se manterá por lá].
O
político pode até enganar o eleitor, pode enganar players na economia, mas
nunca poderá enganar a matemática. O Brasil está para fazer uma reforma da previdência
impopular, como todas são porque mexem com direitos, que exigirá esforço muito
grande de todos os setores, tanto do trabalhador CLT quanto de funcionário
publico e militares de alto escalão. Se, no final, a reforma pegar somente o
coitado do segurado do INSS, a tendência é o Brasil descer a ladeira, assim
como aconteceu com a Argentina, porque essa crise é de privilegiado do Estado. Então é preciso fazer uma boa reforma da
previdência.
Porém,
até mesmo a reforma da previdência perfeita poderá fracassar, caso não haja
também outras mudanças reais. São modificações que devem passar desde privatização
até mesmo tornar mais maleável o sistema de contratação e demissão de alguns
setores do funcionalismo público, ao abandonar o regime de estabilidade atual.
Não dá mais para a máquina pública ficar engessada, preocupada com situações
periféricas - como produção de camisinha no Acre -, além de não haver agilidade
no processo de reformulação de servidor público, em que só a flexibilidade do
regime de CLT pode fornecer. O Estado precisa também evoluir, ser proativo e
saber se antecipar aos eventos externos que possam gerar até mesmo crise. Até
porque um Estado inchado e ineficiente faz o povo todo ficar refém de uma casta
privilegiada que não merece tal privilégio e nem poderia também gozar de boa
reputação porque não entrega resultado minimamente esperado.
Com
essa composição, caso não se faça a reforma da previdência, ou que se faça de
forma equivocada [continuando a dar benesses para uma elite que não produz
nada], é fato que não há na história relatos que referendam que um país galgue
em melhoria fazendo déficits sem parar, sendo que não tem riqueza para
gerenciar essas dividas [nem mesmo somando riqueza natural, abrindo mina em
área indígena].
Caso
os déficits virem o “novo normal”, e não havendo ações concretas para a reforma
de Estado, é óbvio que a solução desesperada e errada é aquela conhecida de
abandonar a estabilidade, ao colocar impressora pra funcionar, para pagar os
déficits, de forma artificial, ao sanar temporariamente problemas gerados pelo
parasitismo do Estado. Porque a solução liberal, como a conhecida na história
pela ditadura militar, é a volta da hiperinflação [imposto na moeda]. Solução
fácil e burra ao mesmo tempo.
Além
disso, o que o povo em geral tem que entender é que a reforma da previdência é
a largada, não é a chegada; é o plantio, não é a colheita. Até porque se não
ficar clara esta lógica de que a reforma não é a panaceia, após a reforma da
previdência aprovada no congresso, o povo EXIGIRÁ RESULTADO positivo IMEDIATO
[pleno emprego, maior poder de compra, economia aquecida, prosperidade em
geral]. É preciso ficar atento ao discurso enganoso pra não sofrer no futuro. Até porque já há recorrência: a reforma
trabalhista não surtiu o efeito desejado.
Por
isso, mesmo fazendo a reforma da previdência perfeita, parafraseando o grande
estadista Geraldo Alckmin: “é preciso saber que o Estado, hoje, não acabe no
orçamento”.
A
reforma da previdência, na verdade, está mais para um teste social, ao identificar
até que ponto a elite do funcionalismo público defenderá as suas benesses de
forma voraz, qual o limite do trabalhador entender que terá que contribuir um
pouquinho mais para o Brasil retomar o equilíbrio, e qual é a real força do
político populista em fazer as verdadeiras transformações necessárias para o
país [mostrando até mesmo se vale a pena alçar, no futuro, político populista ao
executivo nacional].
Diante
tudo isso, a narrativa verdadeira da reforma da previdência não pode ser essa
de que: “faz a reforma e tudo vai melhorar”. Mas é essa: “se não fizer reforma,
tudo vai piorar”. Infelizmente, não é um argumento positivo, é uma lógica
negativa.
Portanto,
a previdência social, por causa de uma gama de fatores, não é o único problema
do Brasil. E não sendo o único problema, a reforma da Previdência Social por mais
perfeita que seja, por si só, não é a panaceia. A reforma da previdência, na
verdade, é um teste social, que indicará até que ponto toda a sociedade
brasileira compreende que deverá fazer sacrifícios para que haja estabilidade
nas contas públicas, para conseguir fazer outras modificações e, com isso,
gerar avanço tanto econômico quanto social. Sem passar por esse teste, a lógica
é a crise ser o “novo normal”.
***
Acabou
o descanso. O Bolsonaro terá que usar o twitter de forma mais enfática para
defender a reforma da previdência. Porque se o presidente, que é quem está
comprometido com o processo, não quer fazer a reforma, os parlamentares, que
estão envolvidos, é que não serão proativos neste sentido. A pergunta que fica
é: Bolsonaro quer a reforma da previdência?
Está
na hora de ver se político populista serve pra alguma coisa.

A Reforma da Previdência Não é a Panaceia de Júlio César Anjos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
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