Capitalismo de Farelo
Por: Júlio César Anjos
Há
debates no território brasileiro para saber se o Brasil é capitalista,
desenvolvimentista ou socialista. Há certa confusão, é claro. Porque para os
liberaloides, a nação é socialista; para os Socialistas de Iphone a pátria é
totalmente capitalista; e para os sensatos o Brasil sempre foi desenvolvimentista.
Mas há distorções quanto à percepção do desenvolvimentismo porque sempre houve
no Brasil uma espécie de capitalismo de farelo; assunto que será abordado neste
momento.
No
Brasil há uma espécie de capitalismo de farelo [que vive de migalha]. Enquanto que no banquete do
desenvolvimentista poucas megaempresas saciam dos grandes montantes de recursos
públicos [na fusão Empresa x Estado], há uma pequena anarquia em microempresas ou indivíduos informais que vivem deste farelo, atividades que prestam trabalhos após o início da banda
de estímulo econômico vindo do Estado. Para melhor compreensão, é preciso fazer
exemplificação. Segue:
O
governo do PT queria o programa: “minha casa, minha vida” para estimular
bandeira de atendimento aos pobres. Para atrair grandes empreiteiras,
estimulou-as a buscarem empréstimo barato via BNDES [primeiro incentivo]. E Para
atrair a demanda, a Caixa Econômica abriu crédito fácil e mais barato que do
mercado convencional para o povo poder comprar a casa própria [segundo
incentivo]. Isso gerou um aquecimento artificial, que gerou bolha imobiliária,
na economia. Mas as pessoas que estão comprando um novo lar, seja o casal que
esteja de separando, ou o filho que está saindo de casa, ou estrangeiro latino
vindo migrar, o fato é que todo esse pessoal precisa de móveis, fazer reforma
da casa, e também contratar empresa de transporte, para que sejam baldeado os
pertences desta nova demanda criada artificialmente no mercado. Essa concorrência
de venda de mobília, contratação informal para reformar [o pedreiro que fará o
chão da casa ou do apartamento] e o “caminhão de mudança” é o capitalismo de
farelo impulsionado pelo banquete do desenvolvimentismo da fusão BNDES (Crédito
barato Empreiteira – Curva da Oferta) e Caixa Econômica (Crédito Barato Povão –
Curva da demanda). Os dois bancos no topo estimulam o mercado da base [ponto de
equilíbrio Oferta x Demanda].
Se
observar o topo da pirâmide econômica do Brasil, o país sempre foi
desenvolvimentista. Mas muitas pessoas dizem que o Brasil é capitalista por
causa deste capitalismo de farelo [explicado no parágrafo anterior].
Para reforçar que o Brasil sempre foi
desenvolvimentista, Elio Gaspari, no livro “Ditadura encurralada” [página 334],
confessou que havia esse conluio de campeão nacional com o estado, embora
tivesse apontado que a privatização na era da ditadura militar foi um fracasso.
Segue:
Vianna listara 36 grupos a serem
convocados para tocar os projetos de desestatização (a palavra privatização ainda
não entrara no léxico do poder). Incluíra os maiores bancos (Bradesco, Itaú, Unibanco e Bozano),
grandes empreiteiras (Camargo Correa,
Mendes Júnior, e Odebrecht), companhias mineradoras (Antunes e Ermínio de
Moraes) e grupos industriais (Ultra, Klabin, Matarazzo e Villares). [...]
retratava o patronato nacional. Das 36 empresas, pelo menos 30 eram familiares.
As estatais seriam compradas com os recursos de empréstimos do BNDE vinculados
aos lucros dos empreendimentos, portanto, sem prazo de resgate.
Embora
o plano de privatização não tivesse sucesso na época da ditadura militar, o
fato é que sempre houve essa conversa não republicana entre a Elite Estatal com
a Elite Empresarial para domínio do poder. Muitas empresas que orbitavam na
ditadura militar, e se beneficiaram por serem campeões nacionais, estão hoje
sendo investigados por corrupção por conluio com o PT [Partido dos
trabalhadores].
Neste
sentido, fica a dúvida: Após escândalos de corrupção, o Brasil deixará de ser
desenvolvimentista e, com isso, manterá somente o capitalismo puro? A resposta é:
Não! Porque no mundo não há sistema capitalista anárquico puro no topo da
pirâmide econômica. É só e leitor lembrar que o EUA, o país considerado mais
capitalista do mundo, aprovou um projeto a pedido de Trump para que o Estado
investisse em 200 bilhões de dólares em infraestrutura para crescimento da nação
norte-americana. Ou seja, até o EUA usurpa o dinheiro do contribuinte para
fazer o estado motor.
O
problema é que o estado brasileiro tenta avançar em áreas que nitidamente o
capitalismo de farelo atende de forma melhor. Em áreas de serviços e de
indústria o estado deve se retirar. Já em áreas estratégicas e que demandam
tempo e grande montante de dinheiro o estado deve permanecer, mas sem
atrapalhar e interromper o fluxo econômico. É por isso que a Petrobrás tem que
ser privatizada a parte industrial, deixando só a área de tecnologia - inteligência
e patente - sob o domínio estatal. Ou seja, um país economicamente sadio deixa
o capitalismo de farelo em paz.
Portanto, o Brasil é desenvolvimentista – com os
grandes campeões nacionais enchendo a pança de dinheiro fácil estatal -,
enquanto que o farelo que cai da mesa desenvolvimentista abastece um
capitalismo dependente de certas impulsões do Estado para fazer a roda
econômica girar – chamado [por mim] de capitalismo de farelo. Não há também
país capitalista puro no mundo, há somente países mais ou menos
desenvolvimentistas, e mais ou menos interventores no capitalismo de farelo. Enfim,
o Brasil será desenvolvimentista, independente de quem ganhar a eleição. Porque
o mundo é desenvolvimentista. Porém, um país economicamente sadio deixa o
capitalismo de farelo em paz.
***
Obs:
se o PT fosse comunista de verdade, nunca teria feito o programa “minha casa,
minha vida”. Porque se o petista acreditasse mesmo na ideia marxista entre “valor
de uso x valor de troca”, saberia que casa é feito pra morar [valor de uso] e
não para especular [valor de troca]. Portanto, o estado não deveria nunca se
meter em um programa como esse, que torna mercadoria o que mercadoria não é;
além de gerar bolha econômica.

Capitalismo de Farelo de Júlio César Anjos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://efeitoorloff.blogspot.com.

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