The Economist x Bolsonaro: Muito Além do Populismo

Por: Júlio César Anjos

Recentemente a revista liberal inglesa The Economist, com um periódico intitulado: “Brasília, nós temos um problema – O Perigo representado por Jair Bolsonaro”, escreveu como subtítulo e teor de que o Bolsonaro seria um candidato populista, por isso pode ser uma ameaça por causa desta atribuição. Apesar de a revista estar certa de que Bolsonaro é uma ameaça à democracia, o conteúdo do texto peca em atribuí-lo como sendo populista.  Bolsonaro é muito além do populismo, é a bola da vez da classe média.

Segundo o dicionário, populismo é assim explicitado: “política baseada no aliciamento das classes inferiores da sociedade”. Agora, veja um dos discursos do Bolsonaro no debate da Band: “O brasileiro tem que escolher menos direitos e emprego ou todos os direitos e desemprego”. Nota-se, portanto, que o Bolsonaro pode ser qualquer coisa, menos populista.

 Isto [não ser populista] deveria ser uma espécie de elogio ao Bolsonararo. Afinal, seria diferente de populistas como Hitler - que falava para o pobre alemão que a culpa era da elite marxista internacional – e de Trump - que diz ao pobre americano que a culpa do desemprego é causa do marxismo cultural, vindo da elite de fora que rouba emprego do trabalhador patriota. O problema do Bolsonaro é que ele é um demagogo (fala o que o povo quer ouvir) sem ser populista, pois fala abertamente para uma classe média ressentida – que gosta de ouvir que o marxismo é vilão -, mas um discurso que não é amparado no pobrismo. Ou seja, muito além do populismo. O candidato da extrema-direita é o queridinho – de momento – da classe média que pode dar até vitória em eleição.

Deste modo, como Claudio Tognolli já observou em sua análise politica, no Brasil, é a classe média quem faz os chamamentos sociais – e por isso cria os maiores fatos históricos nacionais – seja pela abertura ou fechamento de políticas de médio e longo prazo. Foi a classe média que pediu a intervenção militar em 64. Foi também a classe média que pediu as “diretas já” expurgando os militares do poder. Assim como foi também a classe média que conclamou o impeachment da Dilma. E será a classe média que estará em primazia quando a próxima comoção popular erigir num futuro não muito distante. Enfim, é a classe média, hoje, que está a gritar “mito” por aí, ao referendar o Bolsonaro como o seu postulante momentâneo desta classe social nacional.

Todavia, uma coisa é certa: o lado positivo é que a classe média não é fiel nem leal. Na primeira contradição mais elevada esta classe abandona o político e a vertente deste filão eleitoral sem pestanejar. Politicamente ela é cruel. Para esta classe social, ela nunca votou de forma errada, ela sempre foi induzida ao erro. Por isso o ódio daqueles que se sentiram traídos, por exemplo, pelo Aécio Neves, em que a classe média o rifou sem pestanejar. Agora, adivinha? A mesma coisa poderá ocorrer com o Bolsonaro, político que está a surfar nesta onda classista, em que se for incompetente ou corrupto será destituído sem ninguém ligar. A classe média não liga pra ideologia, nem pra discurso, nem para certas contradições – embora tenha uma regra discursiva que seja aceita de antemão -, o que ela quer no final é tão somente RESULTADO.

Neste sentido, se as pesquisas eleitorais estiverem certas, o Bolsonaro tem o maior percentual de eleitores considerados instruídos [classe média alta], mesmo este político nunca tido governado e nem mesmo possua à disposição um programa de governo para nortear eleitores. Os instruídos [classe média alta], também, não estão ligando para as contradições de que não se governa sem congresso, pois o “mito” tem uma carta na manga para fazer o Brasil se elevar. Como? Não se sabe. E a classe média também nem quer se aprofundar a respeito. Afinal, quem tem que correr atrás disso é o político. Mas caso Bolsonaro seja presidente, e não entregue o que diz que pode entregar de fato, a classe média não fará cerimônia nenhuma em jogar este político da extrema-direita aos leões. É só ver que a classe média não está nem aí para o Lula preso e também a Dilma, mesmo a ex-presidente não tendo crime de corrupção na ficha criminal, o fato é que os dois foram chutados pela classe dominante brasileira.  

Mas o Bolsonaro quer ganhar a eleição. E a classe média da maioria silenciosa gosta de formatar o político para votar. Foi assim que o Lula se deformou ao ponto de nem saber mais quem era ao ver-se no espelho, ao ser polido pelo marketing político, porque se modificou de colérico a fleumático; o mesmo “fenômeno” que acontece com o Bolsonaro que está com banho, tosa, e rivotril em dia. Por esse ponto de vista, saiba que isso já é uma vitória e demonstração de poder da classe média, que coloca o presidenciável revoltoso a ter que virar praticamente um poodle de marqueteiro político. A automodificação estética e narrativa foi uma derrota a Lula, assim como já está sendo uma derrota para o Bolsonaro – independente se ganhar essa eleição ou não.

A revista The Economist erra em chamar Bolsonaro de populista, mas acerta em compreender que o Bolsonaro é uma ameaça à democracia. É uma ameaça porque, caso esteja de antemão enganando a classe média, ela se voltará contra o “mito” e pedirá a sua cabeça, mesmo sabendo que o Bolsonaro é político do sistema militar. E aqui vai uma confissão: o Bolsonaro está enganando de antemão. E a classe média, por hora, defende o “mito” ao dizer que qualquer critica voltada a ele é mera intriga da oposição. É este o cenário que se avizinha. É isso que se tem possivelmente para 2019.

O Bolsonaro, também, é o político que mais tem apoio das redes. E, sendo assim, dá pra tirar até mesmo conclusão. O pobre não tem dinheiro nem tempo para ficar pendurado na internet defendendo político de estimação na rede. O rico tem dinheiro e está desfrutando da riqueza ou está à trabalho em que a responsabilidade vira distração. Sobra só a classe média a ficar pendurada na internet defendo o “mito” aqui e acolá. Portanto, quem defende o “mito” não é populacho, é o classista medíocre. Bolsonaro também tem spambots e crianças o defendendo na internet. Mas isso é o de menos.

E, por fim, a classe média está dividia em 3 partes: a parte menor no recall do Lula; uma parte mediana no recall do PSDB (histórico); e a maioria da classe média, por hora, está com o Bolsonaro (fato novo). É por isso que essa eleição está em aberto. O eleitor não faz cálculo politico, ele faz decisão eleitoral simples [por isso que Lula e Bolsonaro lideram pesquisas], por isso que não ligam sobre o futuro, sendo que estes dois extremistas não possuirão governabilidade. É mais sentimento do que razão. Mas os sentimentos mudam; a razão, não. Achar que o político baterá de frente contra o sistema e o povo (classe média) estará ao seu lado para o que der e ver é puerilismo que chega a ser até caricato. A classe média busca no aeroporto (Bolsonaro), lota pátio de montadora (Lula), mas não aceita perder o bem-estar.

Portanto, Bolsonaro não é populista, é a bola da vez da classe média. Se o “mito” fosse populista, seria fácil desconstruí-lo, bastaria denunciá-lo como diversionista social. Bolsonaro só surfa na popularidade de uma classe que poderá ofertar a sua vitória na urna. Mas o “mito” engana uma classe que não gosta de ser enganada. E é por isso que o The Economist acerta em dizer que a democracia está sob ameaça.  Porque a classe média não é fiel nem leal. Esta característica foi observada até pela Marilena Chauí, que teve ataque de pelanca por dizer: “tenho horror da classe média” porque sabe que essa classe social só quer saber de resultado, sem ser fiel nem leal à ideologia alguma. A classe média só liga para o próprio bem-estar – o que não é de maneira alguma uma falha e sim uma virtude. Enfim, Bolsonaro não é populista, é a bola da vez da classe média que tem o poder de decidir o futuro da nação.


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Que a classe média coloque Alckmin na presidência, pois é o único que pode governar. Caso vá para o segundo turno Bolsonaro x Candidato do PT, é crise até 2022 comandada pela própria classe média que sentirá que foi enganada na eleição presidencial. É por isso que o The Economist acertou que Bolsonaro é risco à democracia. O PT também é.

 Texto sobre a matéria do The Economist: 
https://www.economist.com/leaders/2018/08/11/the-danger-posed-by-jair-bolsonaro



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