A CIA Desmonta Elio Gaspari

Por: Júlio César Anjos

“Caminhando contra o vento / Sem lenço e sem documento / No sol de quase dezembro / Eu vou” – Caetano Veloso

Quando a pauta é sobre ditadura militar não tem o que contestar a respeito deste assunto, o perito neste ramo chama-se Elio Gaspari. O profundo pesquisador destaca-se em disponibilizar ao público em geral um material farto em detalhes de conteúdo desta época em questão, além de obter um sem-número de fontes e referências neste regime de exceção que, por supostamente proteger a população contra um “comunismo vilão”, virou o vilão por causa das próprias ações. Com a conclusão de que a delinquência dos quarteis fazia um fenômeno sem precedentes em fechar as liberdades para os civis e afrouxar as atividades dos militares, chegando ao ponto de se perder o controle nos quarteis, tal desarranjo provocou uma perversidade sem igual na recente história brasileira. Mas como nem tudo é perfeito, esta nova documentação apresentada pela CIA desmonta a lógica imputada pelo Elio Gaspari, na sua grande coletânea intitulada: “Ditadura”, por causa da incongruência da narrativa e ilustração do passado com a apresentação de novos indícios aos dias atuais. E é sobre isso que se deve resenhar.

Quem já leu a coletânea Ditadura, de Elio Gaspari, sabe que a jornada que vai desde o início até o fim da malfadada ditadura militar, em questão de repressão, fazia na régua histórica uma espécie de parábola [figura abaixo], em que há o início da radicalização com o Castelo Branco, a criação de mecanismos de interdição do Estado, com Costa e Silva, chegando ao ponto do aprofundamento da linha-dura propriamente dita com o Médici, até começar a haver o suposto afrouxamento do regime com Ernesto Geisel, para, enfim, iniciar a entrega do Estado em “definitivo” aos Civis pelo Figueiredo.
Ou seja, Geisel era considerado humanitário, até certo ponto, porque afrouxou a linha-dura perversa do Médici, iniciando a redemocratização do Brasil. Até porque na publicação de Elio Gaspari, o livro sugeria que Geisel [Sacerdote] e Golbery [feiticeiro] queriam a redemocratização antes mesmo de chegar ao poder.  O que a CIA mostra, agora, ser totalmente falsa esta narrativa, pelo menos por parte do Ernesto Geisel [apelidado de Alemão], já que o sacerdote ocultara 104 mortes realizadas em seu mandato.

Esta informação da CIA também mostra um fato incontestável: que nenhuma ditadura divulga estatística fidedigna com a realidade. E é aí que o Elio Gaspari, mesmo sendo um fenômeno no assunto, erra ao coletar dados dos próprios ditadores para fazer esta publicação histórica. E como é sabido na ditadura comunista soviética, o mundo só soube da crueldade deste regime após Khrushchev ter desmantelado o Stalin, por praticar crimes hediondos pela força do aparato do Estado. Caso não houvesse essa denúncia, ninguém ficaria sabendo dos crimes cometidos na antiga Rússia. Por isso que muita gente diz, com razão, que só se saberá a verdade daquela época se os militares, ao pensarem no país [e no mundo], ao serem ao menos um pouco humanitários, fazerem o favor de abrir os arquivos secretos presos pelo acordo de anistia para que o brasileiro possa saber, então, que não se pode dar mais poder para quem já tem. E ensinará também que exército não é uma boa solução para executivo nacional em regime democrático algum.

Deste modo, foi no governo Geisel que a ditadura militar, que teoricamente estaria a ser afrouxada, abriria conversa com a CNBB, entidade que era oposição aos militares genocidas, ao denunciarem as atividades do aparelho do estado para fins não humanitários. Essa é a narrativa “oficial”.  Agora, se for analisar que a estatística manipulada na ditadura mudava de assassinato político para mero desaparecimento de corpo, iniciada em forma exponencial na gestão Médici, permanecendo esta nova configuração diante todo o governo Geisel, pode-se conjecturar que essa nova metodologia dos militares satisfez a CNBB. Porque a lógica é simples: quando tinha corpo para fazer perícia, a igreja tinha que se posicionar; não havendo corpo, tudo fica na parte da suposição, desobrigando a igreja a se posicionar. Portanto, o aumento dos desaparecimentos na era Geisel [que agora aparecerem de uma vez só no documento da CIA], juntou o útil ao agradável à CNBB, facilitando o alinhamento entre igreja e ditadura naquela época. E das duas uma: Ou a CNBB sabia mesmo disso e se alinhou por adoção ou os militares a fizeram errar. Só que no livro de Gaspari, a lógica predominante é que Geisel era “malvado favorito” porque conseguiu abrir conversa com a igreja católica, mesmo após os acontecimentos de perseguição aos dominicanos naquele dado momento de repressão...

Mas com a publicação do documento da CIA nem tudo foi desmantelado. Na questão econômica, por exemplo, a confissão de que Delfim Neto manipulava as estatísticas, que ia desde manipulação de aferição de inflação até ocultação dos problemas estruturais do país, essa premissa ao menos mantem-se fiel. Só que a narrativa histórica determinava que Médici fosse o precursor do “Milagre Econômico”, auferindo crescimentos de dois dígitos no PIB do país, ao passo que também era considerado o mais repressivo de todos na era da ditadura militar. Isso pensado cirurgicamente para que as boas notícias econômicas amortecessem os crimes provocados pelos militares. Agora, com essas novas informações divulgadas pela CIA, Ernesto mostra que, além de ter sido pífio na parte econômica, foi também nefasto na parte social, da repressão ditatorial.

Embora Geisel tivesse, a pedido de Golbery, afrouxado a censura no sistema de ensino, ao ter poupado os “conspiradores” como FHC (Fernando Henrique Cardoso), no caso CEBRAP, foi na era Geisel que a ditadura censurou, politicamente por meio de colaboração de Roberto Campos, o primeiro americano Nobel em Economia Paul Samuelson, ao suprimir uma parte em seu livro Clássico chamado “Ecomics”, que mencionava o fato de que toda ditadura tende a gerar caos econômico e social - e que o regime brasileiro era fascista. Ou seja, por causa de falta de informação estatística, Roberto Campos convenceu um Nobel a ter a tradução da sua obra para o português censurada, o que mostra que a ditadura forçou o erro até mesmo de um notável econômico como o Paul Samuelson por causa de ocultação de informação. Se Samuelson soubesse que Geisel matava para se manter no poder, poderia ter outra decisão a tomar. Isso é mais uma questão de revisão para a história brasileira e para Elio Gaspari corrigir.

A ocultação das mortes por parte dos ditadores militares, que escondiam os cadáveres estatisticamente como desaparecimentos, mostra o lado mais obscuro daqueles que insistem em dizer que a força armada possui moral considerada elevada, portanto, uma instituição considerada não corrupta. E, infelizmente, neste caso em específico o exército foi corrupto no sentido de que, ao esconderem estatisticamente as mortes, mostraram toda a deterioração moral e espiritual que não deveria ser condizente com o espírito das forças armadas. Essa corrupção moral de matar e dizer que não matou revela a verdadeira face dos facínoras que governaram o Brasil na ditadura militar. E quem esconde estatística de morte, esconde estatística de corrupção financeira. Portanto, infelizmente, Gaspari terá que corrigir também o fato de que os protoditadores eram corruptos, com a mais perversa modalidade das corrupções: a que mata para se manter no poder.

Geisel é conhecido, também, por ser o “presidente” que revogou o Ato Institucional 5 (AI-5). Mas o fato é que Geisel só revogou este ato porque já havia um esgotamento no modelo da ditadura militar, tanto na parte social quanto econômica. E não precisa ser profético para saber que, se esse ato já fosse revogado antes, no início do mandato de Geisel, muita coisa ruim poderia ter sido anulada já naquele dado momento. Ao anular o ato em 78, no fim do mandato, sendo que em 79 assumia o Figueiredo, tal demora só mostra que Geisel queria usar este instrumento para esconder os cadáveres que o seu governo e o seu regime praticou.

Portanto, ao silenciar a igreja, cita-se a CNBB, ter feito o Nobel em Economia aceitar ser censurado por ter sido enganado, além de que tais atos secretos fizeram com que a história fosse contada de forma incorreta pela régua histórica, o fato é que essa nova publicação de 104 cadáveres na conta do Geisel faz uma mudança significativa na histórica brasileira, além de obrigar modificação considerável na coleção Ditadura, de Elio Gaspari. Em suma, a CIA desmonta Elio Gaspari. Porque as novas edições corretivas pelo menos dos livros 3 [A ditadura derrotada] e 4 [a ditadura encurralada] do BOX Ditadura deverão seguir as seguintes instruções: Edição ampliada e revisada. Gaspari terá que escutar com mais atenção [e “carinho”] o outro lado da narrativa, além de mostrar outro lado de Geisel: o lado do general vilão. Enfim, revoga-se a parábola da repressão, do Elio Gaspari.


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