Dá Bilhão? Ou: Porque o Liberalismo é Quase Inútil na Eleição
Por: Júlio César Anjos
Toda
eleição para executivo, seja ele no âmbito municipal, estadual ou federal tem o
mesmo conteúdo e formato de apresentação: 1) promoção do próprio candidato; 2) exibição
de polêmicas de adversário; 3) divulgação de coisas grátis [que não são grátis]
de montão. É só verificar este fato em qualquer programa partidário com grande
minutagem no horário eleitoral gratuito [que também não é gratuito]. Este formato
é desenvolvido porque o político só oferta o que o povo demanda, ou seja, tudo
o que é criado em uma programação eleitoral é feita pelo próprio interesse do
eleitorado. Até porque político nenhum oferta aquilo que o povo não quer. É por
isso que desde o debate técnico do “dá bilhão?” do Ciro Gomes ao refutar o Rodrigo
Constantino até o tal “coisas grátis” do “saúdeeducação” de debate popular, no
programa de televisão, tais situações escorraçam as ideias liberais do programa
eleitoral.
Marketing ganha eleição: 2 minutos de coisas grátis
Na
questão de debate técnico, no clássico “dá bilhão?”[vídeo no fim do texto], do Ciro Gomes, deriva de
que, na formação do Estado, há três itens fundamentais: 1) Constituição,
documento de intenções do estado; 2) Funcionários públicos que irão atacar as
intenções constitucionais; 3) os recursos que serão aplicados para pagar os
funcionários públicos [e outros custos] para as realizações constitucionais. Portanto,
o estado é a tríade de constituição, tributação e custeio da máquina [pública].
O problema é que os desembolsos hoje mostram um gráfico de pizza de difícil
resolução, em que uma grande parcela é para pagar o custeio da máquina, outra
parcela para rolagem de divida pelo juro [investimentos não realizados ou
calote no passado], sendo impossível sobrar dinheiro para investimentos futuros.
Como o orçamento é passado de ano a ano, além de funcionário público não poder
ser demitido, somando à questão de que retirar os investimentos que já existem
podem conflagrar mais crise ainda no setor estatal, é fato que este engessamento
público faz o “dá bilhão?” do Ciro Gomes algo didático. Só dá bilhão com ruptura
[calote de dívida e/ou corte de serviço]. Só que ruptura pode gerar crise. E a
crise pode fazer moratória, criando um circulo vicioso.
Já
no âmbito social, o povo quer coisas grátis. Não tem jeito, o povo em geral não
liga em primeiro momento para tributação [desde que o imposto seja justo], mas
quer que os desembolsos ofertados ao estado sejam materializados em serviços
para a sociedade. E aí vem o mantra habitual na campanha eleitoral: Saúde,
Educação, Segurança, Infraestrutura, Lazer e etc; seja estes serviços para
amparar os desafortunados ou à própria classe média que no momento até tem uma vida
boa, mas não sabe o dia de amanhã e já defende esse sistema caso necessite
algum dia. Então, mesmo uma pessoa, por exemplo, bem empregada e com bom plano
de saúde, por causa da variação da vida, pode ficar desempregada e perder a
defesa social, compreende que deve defender esse modelo de estado e começará a
defender o SUS desde já. É pura e simples questão de autodefesa psicológica: é
questão de: “Eu posso ser você amanhã”.
A
sociedade, desde que não haja crise de desemprego, não liga para o “estado
motor” na economia – o que significa desenvolvimentista; mas liga para o “estado
socorrista” no social – o que não necessariamente seja socialista/comunista, pois,
essa vertente ideológica pode derivar do costume socialista cristão. Por isso
que, para o povão, não importa a cor do gato desde que pegue o rato, ou seja,
desde que o estado seja assistencialista, a forma como se paga a conta destes
serviços sociais é, em primeiro momento, banal. Isso explica de forma
inexorável a manutenção do PT por tanto tempo no poder [e que ainda está a
assombrar o Brasil nesta eleição]. No mais, é até compreensível a lógica do
liberal na parte econômica, é fato até incontestável alguns argumentos deste
grupo em alguns fundamentos econômicos. Mas os liberais pecam em não serem
assistencialistas. Pois, se assistencialista fossem, não seriam liberais, seriam
sociais democratas. E, como já explicado neste texto, para a massa, o social
solapa o econômico, portanto, os liberais são inúteis como programa em uma campanha
eleitoral – embora os liberais sejam importantes na questão de sinergia, em que
essa parte pode ajudar o leitor na tomada de decisão.
Além disso, em que até agora se entrou somente
no fato do liberalismo na questão econômico-social, no liberalismo individual,
em que abarcam questões de aborto, liberação de droga, de orientação sexual e
de utilização de corpo como o proprietário deseja [por exemplo: venda de órgão
ainda vivo], questões muito difundidas no libertarianismo, neste ponto, então,
é que o liberalismo some de vez da discussão política eleitoral. O povo
brasileiro ainda é muito conservador e o que se dá pra fazer é conseguir apenas
algumas pequenas vitórias, que, se comparar com estados confessionais, já dá
pra dizer que é o mais alto progressismo; mas, na verdade, não muda muito a condição
de que o povo brasileiro seja ainda muito conservador.
Portanto,
após fazer este breve apanhado sobre a composição do liberalismo na política, esta
bandeira não “dá bilhão” nem é pauta importante em uma eleição. No pleito, o
liberalismo só aparece de forma periférica, em algumas ações instrumentais econômicas,
como desburocratização, privatização, redução de imposto, e só. E a eleição é
muito mais do que essas picuinhas econômicas, pois é articulação política para
gerir o Brasil como um todo. Isto posto significa que a campanha eleitoral é
algo muito mais complexo do que somente a bandeira liberal. Na hora que
esquentar a campanha, próximo da eleição, haverá também outras articulações
como mapeamento de regiões com as suas idiossincrasias e pautas de bandeiras
sociais, que colaborarão e definirão o futuro presidente da nação, ao ofertarem
apoios pelas bases, pelas capilaridades e pelos interesses em geral. Política é
isso, o leitor querendo ou não. Dá bilhão? Não.
Obs:
neste vídeo, assim como o Rodrigo Constantino exemplificou um argumento teoricamente
mencionado por Misses, “que não é porque existem destilarias que as pessoas
bebem whisky, é porque as pessoas bebem whisky que existem destilarias", o
mesmo argumento serve para o estado, em que: “o político só oferta o que o
povo demanda” [frase criada pro mim]. Ou seja, o povo quer serviço estatal.
Obs2: Também sou contrário a esta ideia de "coisas grátis". Mas a luta não é nesta eleição, é no campo do conhecimento, algo de longo prazo, desde que esse combate comece desde já.

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