Liberal na Economia e Conservador nos Costumes: Não Existe

Por: Júlio César Anjos

O mantra da extrema-direita, que se finge democrática para obter o poder, é dizer que o brasileiro tem que escolher um político que seja “Liberal na Economia e Conservador nos Costumes”.  Apesar de parecer algo muito bom, o fato é que Isso não existe. Mas para discorrer sobre esse excêntrico discurso, há de saber de antemão o que é Liberal, o que é Economia, o que é Conservador, e o que é Costume. Depois de compreender toda a estrutura, e verificar no empirismo em curso, a lógica prevalecerá e mostrará que a frase de efeito: "Liberal na Economia e Conservador nos Costumes" é extremamente enganosa. E falha na concepção.

Primeiro, as definições: 1) Economia: Alocação de Recursos Escassos na Sociedade [Entenda-se escasso como algo finito e não como algo que está acabando, que vai esgotar – embora haja alguns produtos que se esgotem por não serem renováveis]; 2) Liberal: na sociedade, estado mínimo; no mercado, que o estado não atravanque as negociações, sem burocracia surreal nem impostos asfixiantes; 3) Conservador: Resguardar as tradições de uma sociedade [o problema é saber qual tradição]; 4) Costumes: Trata de manter como o individuo irá agir e se portar nos padrões de uma sociedade.

Qualquer aluno medíocre de área de business sabe que, no mercado, há sempre duas barreiras a incomodar os negócios, seja ela no âmbito nacional ou internacional: 1) As Barreiras Tarifárias; 2) As Barreiras Não Tarifárias. As tarifárias são acionadas para inviabilizar, por meio de tributos, a negociação de algum produto que se queira ser impedido no mercado doméstico, seja este produto vindo por meio de importação, seja pelo fato do Estado atacar o mercado nacional ao beneficiar uns em detrimento de outros. Nos dois casos, o produto fica tão caro, tão caro, que é impossível alguém comprá-lo por causa da sua precificação mediante impostos asfixiantes embutidos neste produto em questão. Já na situação de Barreira Não Tarifária (BNT), as instituições, seja ele o órgão regulador, anuente ou interveniente, são tentáculos do estado em que tais agentes trabalham para atender a população de forma geral. Neste sentido, estas instituições trabalham para impedir o comércio que esteja em desacordo aos preceitos da sociedade. Os exemplos básicos são: ANVISA, Anatel e etc.

Como as instituições são instrumentos que atendem ao interesse da população, pois a constituição é clara quando diz: “Todo o poder emana do povo”, então, estas instituições podem também serem ferramentas para o “fiscalismo conservador”, em que, no Estado Policial, cada cidadão vigia o outro de forma sem igual, porque a comunidade é colaborativa com a instituição repressora. O Brasil já viveu isso na época do Sarney, em que havia senhorinhas, até mesmo bem intencionas, que tentavam ajudar “o presidente” [na verdade ajudava as instituições fiscalizatórias] a conter a inflação. Mas, no final, o que as senhorinhas bem intencionadas fizeram mesmo foi criar o desabastecimento de forma geral nas gôndolas dos supermercados, próximo ao que acontece com a Venezuela de Maduro hoje em dia.  Nos dias atuais, as senhorinhas bem intencionadas querem intervenção Militar [aí já dá pra concluir que de boa intenção o inferno está cheio]. Ou seja, O tal conservador nos costumes pode criar instituições que comecem, por meio legal, literalmente fiscalizar e até prender, por exemplo, quem não tenha uma religião alinhada ao estado confessional, ou que tenha uma orientação sexual que vá contra as premissas neste dito: conservador nos costumes. Já pensou a extrema-direita vencer a eleição e criar a ANFISCU (Agência Nacional de Fiscalização de Brioco)? Não é de duvidar.

Voltando ao assunto principal, com a concepção de que se deve, por meio de um conservadorismo no costume atender aos interesses dos cidadãos pela proibição de comercialização de algum produto, é obvio que também se perde a liberdade econômica. O conceito mais notório encontra-se em Estado Confessional, em que os valores religiosos fundidos com o Estado impedem liberdade individual e, com isso, perde-se também a liberdade econômica. Por exemplo: Os califados obrigam as mulheres usarem burqa; e essas burqas impedem um mercado maduro de cosmético e moda no ambiente feminino daquela região [lembrando que os califados só se mantêm nesta forma de governo por causa do petróleo].  Portanto, liberal na economia e conservador nos costumes é falácia, não existe.

É por isso que a idade média, mais conhecida como idade das trevas, foram 1.000 anos de atraso civilizacional, sem haver grandes saltos evolutivos de melhora de qualidade de vida para os seus cidadãos, além de que só o que evoluiu foi aquilo que estava somente ligado à religião e ao monarca. Ou seja, a charrete que entrou no início da idade média era praticamente a mesma tecnologia de mobilidade que estaria em vigor pós o findo da idade das trevas. E a longevidade da era de Constantino também era muito próxima à expectativa de vida no fim da idade média [por falta de evolução em vários setores na era das trevas, desde saúde à educação].

Porque só é possível melhoramento social como um todo quando se há o progressismo e a liberdade para criar o melhoramento para todos. Com a exceção, óbvio, de que progressismo não signifique libertinagem [libertinagem tem que ser contida, independente de conservador estar certo neste assunto]. Diante disso, a inovação só foi possível pós-queda da idade média, trazendo de volta as ideias gregas pelo renascimento, com advento do iluminismo que, ao sonhar com Ícaro e Júlio Verne, o homem domou os céus – com o avião – e domou os mares – com os submarinos. Caso contrário, com a manutenção do estado confessional que impedia a ciência, o homem estaria ainda muito próximo de sua condição natural, pois os avanços tecnológicos, pela educação que leva a evolução científica, não se concretizariam.

Com isso, a conclusão a se chegar é que o país civilizado que queira melhoria em qualidade de vida, seja por causa de avanço tecnológico e/ou social, deve ser Liberal na Economia e Progressista nos Costumes. Deste modo, a liberdade economia só se adapta ao progressismo, em que o respeito mútuo gera liberdades individuais. Porque o conservadorismo nos costumes, que é traduzido em impor moral cristã nas leis do país [ao acabar com a laicidade], só deve ser inserido na sociedade pela adoção e não pela imposição. Ou seja, a religião só pode ser inserida no meio social pela adoção e não pela imposição. Mas pela adoção é difícil essa doutrina cimentar-se.

E, diante de tudo isso, por incrível que pareça, o Brasil conseguiu o mais difícil: que é inserir o progressismo social nos cidadãos [por adoção], mas tem dificuldade em ser liberal na economia, justamente em questões a respeito de burocracia e elevados tributos que estrangulam a qualidade de vida do brasileiro; por isso que a economia do país não sobrepuja. Então, o que leva crer é que o Brasil não se desenvolve por causa do Estado que se mete na economia, ao gerar serviços caros e ruins - e não por causa de um relativismo cultural que leva à degradação tanto econômica quanto cultural.

Portanto, ser conservador nos costumes e liberal na economia é impossível. Só é possível ser liberal na economia se houver progressismo em curso para criar ofertas e demandas em um mercado livre. Mas se o brasileiro quer o conservadorismo nos costumes, em que isso se traduz em estado confessional cristão, então que se saiba de antemão que haverá perdas significativas em vários ramos da economia, simplesmente porque a convicção cultural impedirá a livre troca de mercadorias porque tais bens somente seriam fabricados, vendidos ou comprados mediante fiscalismo conservador, o que se traduz  em jargão nos business como "barreira não tarifária". Para a liberdade econômica atender aos interesses do Conservador nos costumes, somente se este costume for fundamentado pela garantia inalienável dos direitos individuais. Aí sim o capitalismo transforma e o Brasil sobe de patamar. Mas esse costume não seria conservador.




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