Teoria do Credor

Por: Júlio César Anjos

Teoria do Credor. Ou: A Inadimplência como Ferramenta de Poder

Keynes, em seu livro: “Teoria do Emprego, do Juro e da Moeda”, disse que investimento gera poupança, e não ao contrário, sendo que a palavra poupança, para o pensador, não advém da tradução pura e simples da expressão poupar, mas, diferentemente, como algo análogo a gerar riquezas. O problema é que muito investimento não se materializa em lucro (em poupança), tendo em muitos casos que ser subscrito contabilmente como prejuízo, mostrando o erro do economista desenvolvimentista, em que a expressão cunhada pelo escritor que vos escreve determina de forma ilustrativa que a divida é o “Fracasso de Keynes”. Todavia, a dívida gerou um novo player chamado de credor. E é sobre a teoria do credor que o artigo embasará as complexidades de qualquer ente investidor.

O ano é de 1939 e começa a segunda guerra mundial. Diante disso, os EUA são apenas fornecedores de insumos e matérias-primas para os ingleses; até que, em 1941, o Japão ataca Pearl Harbor, e, por questão de “soberania nacional”, a situação obriga o ianque a entrar na guerra por questão de honra. Essa é a leitura oficial. Mas, se não houvesse esta agressão por parte dos japoneses, o americano entraria na guerra do mesmo jeito? A resposta é sim. Basta olhar a primeira guerra mundial. Porque os EUA eram credores dos ingleses, que estavam a perder a guerra. Perdendo a guerra, a Inglaterra não poderia pagar os EUA. E os EUA não queriam perder o investimento realizado. Os EUA entraram na guerra, conseguiram obter o dinheiro empenhado como credor e ainda instituíram o plano Marshall, sendo credor da reconstrução da Europa. Pela teoria do credor, Os EUA articularam desde o início a Europa para tê-la nas mãos.

O economista Dean Baker, do Livro: “A Economia Levada a sério”, disse que, para salvar bancos, o próprio estado americano criou uma instituição chamada Federal Deposit Insurance Corporation (FDIC) para evitar a corrida do povo aos bancos, algo parecido com o fundo garantidor de crédito no Brasil. Essa ferramenta ajudou os bancos a negligenciarem as suas ações, pois poderia haver um escândalo ou outro que não haveria corrida nos bancos, e, se existisse tal desespero, o estado arcaria com o prejuízo.  Mas, como sabido, a crise chegou e passou dos limites, desnudando que o Estado deveria fazer uma ajuda maior do que a garantia estatal criada outrora.  Sendo assim, criou-se o “Grande Demais Para Falir” (GDPF), pensamento concebido para fazer convencer o povo de que salvar o banco ou uma empresa grande salvaria empregos e até acabaria com a crise. Com isso, o Estado cada vez mais aporta dinheiro publico para salvar empresa privada. Pela teoria do credor, o Estado ganha poder em ter a empresa no “bolso”, enquanto que os investidores podem fazer farra que estarão garantidos com mecanismos públicos. É a dívida como modo de vida, maneira de viver.

Diante disso, alguém aí viu, nos últimos anos, empresa grande falir? Nos dias atuais, se a empresa não é salva pelo Estado, é “resgatada” pelos rivais concorrentes, ou outros investidores ao dispor, seja por fusões e/ou aquisições.  Essa fenomenologia acontece por diferentes fatores, mas o mais óbvio é porque os credores são quem possuem o poder de fechar uma empresa que está a virar uma “massa falida”. Então, antes que aconteça isso, os stakeholders sugerem (impõem) que a empresa deficitária seja vendida para o credor reaver o ativo outrora emprenhada naquela empresa, naquele dado setor. Na teoria do credor, realmente os stakeholders da força de Porter, justamente os credores, forçam uma empresa deficitária ser vendida para outra, para que seja reavisto o investimento feito, antes que essa empresa torne-se insolvente de verdade.

Abram-se parênteses. Suponha que o fornecedor A, por exemplo, de televisão venda tal material para uma varejista A. Essa varejista A não consegue pagar pelo produto, ficando em dívida com o fornecedor A. O fornecedor A, agora credor, para não pedir falência para a varejista A, pede para ganhar mais espaço nas gôndolas como sinal de boa fé, como manobra de negociação, reduzindo o espaço de um fornecedor B no espaço confinado da gôndola. Esse fornecedor A conseguiu isso por causa do poder que tem ao ser credor. Agora, suponha outro exemplo: Um grupo de fornecedores fornecem seus produtos para várias empresas varejistas. Quando uma dessas varejistas começa a ter problemas de mercado, esses stakeholders (fornecedores), antes que esta varejista venha falir realmente,  impõem a venda desta empresa insolvente para outra varejista, para que obtenha o valor de investimento reavisto, sem que haja transtorno maior com a justiça. Portanto, os stakeholders credores possuem o endividamento como ferramenta de poder. Fecham-se parênteses.

Neste sentido, vale lembrar que os mais endividados sempre são as grandes instituições, seja um clube de futebol, uma empresa comercial ou até um país. Ninguém dá crédito para pessoas pobres, dada à veracidade da máxima francesa: “On ne prête qu’aux riches” (Não se empresta senão aos ricos).

Mas por que as grandes instituições ficam endividadas? Se tais órgãos são grandes, por que tanta fome assim? Uma das respostas é que, como sempre há algo/alguém que irá socorrer, seja por questão pragmática ou sentimentalista, fazer dívida em cima desta entidade em questão faz com que os credores, que são os amigos institucionais, ganhem essa renda paga pelos socorristas. Um clube de futebol, por exemplo, sempre será socorrido pela torcida, seja diretamente com campanhas de salvamento, seja por meio de lobby político, criando alguma coisa para reavivar o clube falido. A mesma coisa acontece com uma cidade que se endivida em certo mandato de um prefeito "incompetente" (corrupção invisível), em que tal divida será paga por outros prefeitos honestos, o que acarreta em riqueza aos "amigos do rei", no longo prazo, somente por serem credores. E, também, um país, que faz dívida para os credores viverem de rentismo. Pela lei do credor, o rentismo faz com que o endividamento, algo que deveria ser ruim, como algo bom para o investidor. Sem falar em Código de defesa do consumidor e a "redistribuição de renda" por meio de lei.

Neste último caso, no sentido de endividar de propósito uma instituição para que os credores ganhem receita pela sua salvação, este desarranjo só acontece porque as leis que deveriam ser duras para o administrador “incompetente” inexistem. Então, um executivo, um prefeito, um gestor incompetente não sofre represálias da justiça, ficando a pessoa jurídica da instituição tão somente suja, fazendo valer a pena endividar esta instituição e enriquecer, por este desarranjo, seus pares que são os credores.

Por fim, já que nem o escândalo nem o absurdo surpreendem, por que não quebrar um país para os rentistas lucrarem mais? Às vezes, até crises são inoculadas de propósito, a fim de gerar desde especulação até aumento de poder.

A solução para acabar com toda essa desfaçatez é simples: deixar falir, deixar quebra de vez, além de prender administradores, gestores e responsáveis por lei. Mas o que menos está se vendo é esta deterioração natural do mercado. Cada vez mais existem conglomerados endividados, sejam do estado ou do capital, fazendo fusão do metacapital com politização. Infelizmente, Marx neste caso tinha razão.  

Portanto, essa é a teoria do credor (ou a inadimplência como ferramenta de poder). A dívida, o fracasso de Keynes, na teoria era para ser algo ruim, um desarranjo do mercado que seria eliminado por meio de falência e prisão de (ir)responsáveis. Mas o mundo é complexo, as coisas não são retilíneas, e, aquilo que era para ser uma aberração, tal medida vira instrumento até mesmo para grupos virarem rentistas, terem mais poder ou lucrar mais, sendo agiotas legalizados. Enfim, não importa se a coisa é pública ou privada, sempre haverá cretinos dispostos a sugar toda a riqueza de uma região (ou do globo todo; por que não?). Enfim, a teoria do credor diz que é a inadimplência como ferramenta de poder.

P.S.: "Ficar devendo é ruim". Depende. Quem está devendo e quem é o credor?



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