Lealdade Hereditária

Por: Júlio César Anjos

O mandamento da bíblia diz: “Honrar pai e mãe”. Esta regra tem um “looping” perfeito, pois, se os filhos aprenderem a honrar pai e mãe, no futuro, tais entes serão pais que ensinarão os filhos a fazerem o mesmo, pela tradição, gerando círculo virtuoso humanitário, não havendo razão para criar leis e mais leis inúteis para gerar a concepção de que os pais devem respeitar os filhos e vice versa. Todavia, há outros tipos de lealdade hereditária que, não necessariamente seja de tutela familiar. Estes casos, porém, não condizem com o laço de família, mas que representa respeito geral. Lealdade hereditária vale, por exemplo, tanto para o cidadão comum até para o rei.

 Hobbes, no livro leviatã, disse que os reis faziam guerras para gerar insegurança geral, para que o povo clamasse por segurança, por aceitação total, a serem tutelados por um rei. E o Maquiavel, no livro O Príncipe, disse que, se um rei tomar outro reinado, este monarca deveria se precaver e “encerrar a linhagem” (matar todos de sangue azul) daquele soberano derrotado, pois, caso houvesse um sangue azul vivo, esse príncipe poderia voltar ao poder e restabelecer a coroa que era, outrora, pertencente à família (laço consanguíneo = lealdade hereditária). Ou seja, o povo aceitava ser tutelado por um rei soberano, e também aceitava que os reis nunca perdessem a coroa – pelo sistema hereditário -, somente em troca de proteção. Inicia-se, assim, a concepção de lealdade hereditária tanto na coroa como na moralidade da família real (por isso que a monarquia é quase sinônima de conservadorismo).

Mas aí os senhores da elite começam a ficar “façanhudos”. Seguem os exemplos: Henrique VIII trai Catarina para ficar com a Ana Bolena, tendo a filha desta concepção amorosa que mais tarde tonou-se rainha, acabando com o princípio real do casamento; Isabel que mata a prima, a Maria Stuart, para manter-se na coroa; E até mesmo a Carlota Joaquina, mulher infiel que fez do rei Dom João VI um bobo da corte. Estes casos são fatos históricos que mostram a decadência da coroa pela falta de exemplo moral da elite de forma geral. O resultado desta desfaçatez gera a seguinte indagação: Se os barões não dão o exemplo - e eles fazem tudo isso-, por que nós, o povo, iriamos respeitar esse código moral impositivo? Eis então um dos motivos para a queda do conservadorismo da ocidentalização.

Com essa fuzarca toda, o povo começa a desrespeitar a linhagem do rei. A lógica é simples: se nem eles se respeitam, por que o povo irá respeitar? Cai então a ideia do sangue do rei ser primazia para manter o poder e sobe, ao natural, a primavera dos povos. E no aspecto moral, também cai a concepção conservadora, pois a elite não mantem esta lógica e o povo acaba sendo mais “libertário”, mais “individualista”, pois não há base moral “superior” para se espelhar. Desta forma, o colapso chega ao ponto de que até o artesão quer direito civil, até o proletário quer o direito de se separar, com a simples lógica de concepção: “O rei se separou, por que eu não?”.

E isso leva a outro tipo de deslealdade hereditária. As colônias, por laços sanguíneos e culturais, possuem traços semelhantes aos impérios em várias afeições, o que daria para dizer que deveria haver uma lealdade hereditária que impedisse a separação entre império e colônia.  Com o enfraquecimento do império e com a autonomia iluminista em vigor, as colônias, embora até com hereditariedade sanguínea, decidem pela emancipação de independência da região, fazendo até mesmo guerras contra o “império”. Um exemplo claro é os EUA x Inglaterra e até mesmo, só que sem guerra, o Brasil x Portugal. Se a lealdade hereditária falasse mais alto, essas emancipações não existiriam.

E, por tudo isso já consolidado, o fim da lealdade hereditária hoje, com os problemas sociais vividos nos países ocidentais. Não só há o problema de separação entre pai e mãe ou filho desrespeitando o tutor, mas crimes passionais e até mesmo parricídios, que tanto estampam as capas de jornais, máculas desta perda de percepção de honrar pai e mãe vividos pelos dias atuais. Chegou ao ponto de uma criança, na Suécia, conseguir ter o poder de até mesmo processar os pais, caso os tutores façam alguma coisa que sinta a criança oprimida. Nem Hobbes imaginaria que o estado tutelaria a população nesta magnitude por esse poder do estado diante da família; Nem Maquiavel acreditaria que parricídio seria algo pouco escandaloso, hoje, no conceito social das comunidades progressistas do século XXI. É de escandalizar até pensador.

Portanto, o mandamento da bíblia foi implodido. Agora, é respeitar o estado porque tem poder para massacrar o individuo. Sem falar na lógica do aborto, que, se olhar bem, é um extermínio de pobre, sob o verniz de direito. “Honrar pai e mãe”. Mas que pai e que mãe? Só se for o pai estado e a mãe “justiça”, que aborta todo dia até mesmo o sonho de um mundo melhor. A lealdade hereditária consanguínea dos reis foi derrubada em definitivo [há ainda países monarcas, mas que os reis são meros figurantes]; a lealdade hereditária império/colônia foi aniquilada sob a plumagem de nações; e a lealdade hereditária familiar encerrou-se pelas mãos do dito progressismo. Só falta, agora, revogar o tal do “honrar pai e mãe” na bíblia, sob a alegação que não serve pra nada. Com a cereja do bolo em ver filho xingar pai e mãe e criança ter até o direito de reportar o s pais ao estado.  É realmente o fim dos tempos.





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Comentários

  1. A maior ofensa foi em não saber escrever. E covarde é você que acha que está se escondendo pelo anônimo, trouxa. Venha que eu tô esperando.

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