Daquilo que é Trabalho e as implicações que o fazem ser
Por: Júlio César Anjos
Um
sujeito faz uma carga horária de 44 (quarenta e quatro) horas semanais, de segunda a sexta, em um lugar
qualquer, até receber o salário no fim do mês. Pergunta: Isso por si só é
trabalho e a pessoa em questão pode ser considerada trabalhadora? A resposta é
simples: Não, necessariamente. Mas aí, alguém dirá: “Esse cara é louco, vou e
volto do trabalho de segunda a sexta, faça chuva ou faça sol, aguentando o
patrão xarope, para no fim do mês receber uma ninharia e o cara vem com essa de
que não sou trabalhador? Ah, parei por aqui”. Por causa destas lucubrações, agora será explanado daquilo que é trabalho e
as implicações que o fazem ser.
Segundo
o dicionário Michaelis da UOL [corroborado por outro dicionário Aurélio
pesquisado e datado de 1960], Trabalho é: “Conjunto de atividades produtivas ou
intelectuais exercidas pelo homem para gerar uma utilidade e alcançar
determinado fim”. Ou seja, alguém aí leu em algum lugar que trabalho é sinônimo
de carga horária e/ou remuneração? Se assim for, um escravo seria considerado trabalhador
somente por causa da carga horária exaustiva e uma senzala como abrigo (a
recompensa, espécie de remuneração, do sistema ardiloso), ao invés de considerá-lo
trabalhador por causa da produtividade em cortar um sem-número de cana por dia.
Trabalho é diretamente atrelado, em sua essência
de existir, à produtividade. Se não produz, não é trabalhador. Simples assim. Essa
visão deturpada sobre o entendimento do que é trabalho tem um nome: Karl Marx.
Karl
Marx sustentou a ideia de que na divisão de classe, o capitalista é o dono do
meio de produção e o trabalhador é o detentor da força de trabalho, em que
vende a sua mão-de-obra em troca de remuneração. Ou seja, Marx faz do trabalho
como substância o contrato em si e não a produtividade em vigor. Marx, o deus
de muita gente, esqueceu-se do pequeno detalhe em sua obra completa, que foi de
mencionar que o aumento de salário está diretamente relacionado à produtividade
do trabalhador; caso contrário, haveria falência e até demissão. É justamente
por causa desta consequência que o norte americano ganha cinco vezes mais que o
brasileiro, pois o ianque produz cinco vezes mais do que o labutador “Bananense”. Simples e
pura questão de lógica. Portanto, trabalho também não significa tão somente o
contrato em vigor, nem a sua assinatura. Trabalho = Produtividade.
Todavia,
se o trabalho é somente remuneração, então o mendigo é o maior trabalhador da
terra, pela lógica em concepção. O que leva a outra lógica: Se um rato move-se
ao fazer girar o globo para ganhar queijo, pelo efeito Skinner, então o rato
também é trabalhador – e não uma cobaia como se presume. O salário é somente
recompensa daquilo que se produziu. E alguns produtos deixam de existir porque
as pessoas não querem tal objeto, acabando com a produção, que, por conseguinte,
elimina também este posto de trabalho, este ato de laboração, não importando se
é uma grande indústria ou se é apenas um pequeno artesão. Agora, se algumas instituições pagam [até
mesmo valores elevados] para pessoas improdutivas, por força de lei ou qualquer
outra situação disforme da regra geral do mercado, esse não é um problema de distorção
natural, mas um erro do sistema imperfeito da sociedade em si. É algo
artificial, que é gerado na concepção que o trabalho é carga horária, e/ou
remuneração, e/ou contrato de trabalho (venda do trabalho em si). Fugindo da premissa
que trabalho é produtividade.
O
que é engraçado, pois a sociedade também cria a distorção sobre quem é
trabalhador. Suponha que há um malabarista num cruzamento e uma pessoa passa de
carro e manda esse circense ir trabalhar (isso é corriqueiro). Esse fenômeno acontece
porque o trabalhador no carro, ao ir para o trabalho formal, ou seja, com carga
horária e remuneração, sendo o sujeito doutrinado pelo sistema, que acredita
trabalho significam esses dois fatores, chama o malabarista, que também está
trabalhando informalmente de vagabundo. Agora, se um grupo de investidores, por
exemplo, fizesse do malabarismo de rua uma profissão, contratando os
malabaristas para desempenharem sua criatividade, diante de uma carga horária
pré-estabelecida e remuneração mensal, tudo isso em contrato, fazendo o malabares
na rua ser um empregado formal, as pessoas passariam por eles e diriam até que
são trabalhadores exemplares. Porque as pessoas confundem trabalho com carga
horária, remuneração, em cima de um contrato.
Diante
disso, pelo fato de que produtividade é a relação crucial do trabalho, o leitor
sabe a diferença entre mercadoria e produto? Mercadoria tem o input e o output;
já o produto tem o input, a transformação, e o output. Tudo isso para dizer que
o Hippie, aquele que todo mundo discrimina na rua, é também trabalhador. O
Hippie tem que fazer o investimento inicial de comprar as continhas (input),
escolher as mais bonitas para começar a fazer as miçangas (transformação), para
aí então fazer a venda (output), ou seja, o Hippie é trabalhador capitalista.
Agora, o hippie por ser uma espécie de ermitão, em que a filosofia de vida dele
é incompatível com a sua, tal diferença não faz do hippie um vagabundo, sendo
que a premissa é invalidada, o hippie ao menos vende a própria “arte” na rua.
A
ironia, também, é que o próprio Marx experimentou do próprio veneno, pois,
apesar de fazer duas grandiosas obras de trabalho intelectual, mostrando-se um
escritor prolífico com “O Capital” e o “Manifesto Comunista”, mesmo influenciando
gerações e gerações, como não tinha carga horária e nem remuneração como
pensador, muita gente que crítica Marx, o faz dizendo que foi um vagabundo
sustentado pelo Hegel. A produtividade intelectual do Marx, querendo ou não, era
elevada, portanto, foi um grande trabalhador. Portanto, trabalhador não é só
aquele que dispõe como ferramenta de trabalho a foice e o martelo.
Por
fim, há uma espécie de trabalho que não possui uma carga horária específica nem
remuneração em muitas vezes, mas que é fundamental para resolver alguns
problemas sociais. Esse trabalho é chamado de voluntário. Um rico rentista, por
exemplo, após sofrer crise de ociosidade, resolve arregaçar as mangas e prover
melhora na sociedade. Não há dinheiro nem carga horária, mas há produtividade intangível
para atingir um determinado fim. Este ser, apesar de ter como recompensa
somente o reconforto espiritual, é um trabalhador, mesmo não sendo considerado
assim.
Há
também uma criação estatal que dispõe de carga horária e elevada remuneração,
mas que a produtividade é quase nula, portanto não é trabalhadora. Mas essa categoria
é melhor, por hora, nem comentar.
Portanto,
há um preconceito (conceito precoce) sobre o que/quem é trabalho/trabalhador.
Diante deste artigo que remonta a um ensaio, que poderá virar até um tratado, é
sabido que trabalho está somente ligado à produtividade e não a uma carga
horária e/ou remuneração. O trabalho pode ser recompensado ou não. E mesmo sem
recompensa financeira, este trabalho pode ser continuado por outro motivo que
vai além do considerado racional, contrariando o conceito de Skinner, da
recompensa após o trabalho desempenhado. E para acabar com qualquer dúvida,
façam uma pesquisa sobre os maiores vlogueiros mais bem remunerados do Brasil,
e veja se eles cumprem carga horária rígida, como se tivessem um trabalho
formal. A maioria faz desta carga horária o modelo anárquico, assim como
artista no passado fazia sua arte. Está na hora de rever conceitos, o mundo
está mudando. E por fim, vai um conselho: Não importa o quê (?), produza!

Daquilo que é Trabalho e as implicações que o fazem ser de Júlio César Anjos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível em http://efeitoorloff.blogspot.com.br.

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