Tchau, Querida
Por: Júlio César Anjos
Dilma
finalmente foi afastada, embora não destituída, ao menos não assombrará, por
enquanto, o país com as suas manobras tenebrosas e fracassadas. É realmente um
alívio momentâneo. Mas a saída da presidente, não obstante tenha pelo aspecto
racional satisfeito em resultado pragmático de vitória de curto prazo, no ínterim emocional nada aconteceu; continuo com o mesmo espirito, sem ter
modificação alguma comportamental. Pelo aspecto global, esperava mais.
Assim como o ponteiro do relógio se mexe e faz do
ano velho ser mudado pelo ano novo, em que as pessoas criam expectativas e
esperanças vãs diante algo totalmente irracional, pois na verdade a mudança de
calendário é apenas uma convenção; ou no sentido de que se transmuta entre uma
limítrofe de uma cidade a outra – até mesmo entre nações -, não mudando o
comportamento daquele que já é calejado em fazer baldeação, o certo é que “tudo
continua como antes, na terra de Abrantes”. Dilma sai do poder. E daí?
Cantarolando Cassia Eller: “Mudaram as estações/Nada mudou...”. Triste
realidade racional.
Achei
que explodiria em alegria na mesma profusão que se estoura uma boa champagne,
para comemorar uma vitória de ocasião. Temer veste a faixa presidencial, os
tucanos continuam distantes do poder, e o congresso mantem-se com os mesmos
quadros da corrupção “legal”. Tirando aquilo que se destaca em salvação
emergencial, o fato é que pouco se pode esperar até 2018, pois os postulantes
continuam iguais, como na música interpretada pela Elis Regina: “Ainda somos os
mesmos e vivemos como os nossos pais”. Mesmo com o esforço do impeachment,
tem-se o gostinho da desolação da patinação e frustração de um trabalho muito
executado e pouco valorizado, de ter como produto final somente como vitória a possível
destituição. O que lembra outra passagem da música Como os nossos pais: “Que
apesar de termos feito tudo que fizemos”... Ainda somos os mesmos.
Pessoas
felizes, comemorando desde em coletividade nas ruas até individualmente em
oração, agraciadas com a emotividade de uma “copa do mundo”, pela etérea possibilidade
de um porvir que está a emergir, achando que a simples votação de alguns
refinados no congresso nacional possam operar milagres de boa ventura de uma
nação, o certo é que pleito bicameral não é remédio muito menos solução. Mais sufrágios
deverão ocorrer ao mesmo espaço/tempo das modulações sociais, pois com
degradação cultural a reboque, pouco se espera de otimismo em médio ou longo
prazo. Que a mudança seja rija e não somente algo pontual.
Por
isso que tenho algo parecido à cultura do Japão feudal, em que fico triste e
choroso ao ver um bebê nascer, por saber que tal ser maravilhoso poderá sofrer
durante a vida; para ficar feliz pós-morte de um senhor longevo que obteve
êxito ao chegar além da fase adulta, conseguindo conquistar ao menos algumas
vitórias em vida. Os emocionais dizem que esse sentimento é distorcido, em que
o rabo abana o cachorro, mas é um pensamento racional. Assim como fiquei feliz
em ver que Aécio perdeu a eleição de 2014, por saber que o país era uma bomba
relógio; em que agora fico triste em ver que Dilma afastada só aumenta a
responsabilidade daqueles que são sensatos e querem o bem para o país. E, de
novo, o certo seria ficar triste em perder o pleito na última eleição
presidencial; ao passo que hoje deveria estar feliz por demover a atual
presidente do poder. Diante todo o aspecto estrutural e conjuntural,
infelizmente não consigo ficar feliz. É o jeito de pensar. Vai saber?
Portanto,
essa "vitorinha de Pirro" não me comove de jeito nenhum, assim como o
PMDB não me convence. Terei Temer a tiracolo porque o momento pede
complacência, pois o Brasil é maior que birrinha de intriga ou ciuminho de
macho. Mas só a "cabeça" da Dilma é pouco; e pessimista [na verdade
sou realista] que sou, esperava mais.
Para mudar as minhas crenças, quero ver vitórias esplendidas, mais
amplas, que abalem estruturas de bases fundamentais. Dilma caindo não fez o
coração acelerar, apenas criou-me um sorriso de canto de boca. Enfim, diante
desse meio inebriante, para a ex-presidente só restou dizer: “Tchau, querida”,
sem exclamação nem ponto final.

Tchau, Querida de Júlio César Anjos está licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0 Internacional.
Baseado no trabalho disponível emhttp://efeitoorloff.blogspot.com.br.

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