Resumo do Conto A Traição das Elegantes

Por Rubem Braga 

O MISTÉRIO DA POESIA

Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem mais profundas...

CONVERSA DE COMPRA DE PASSARINHO

Completamente escravo do homem, o coleirinho põe-se a cantar, mostrando suas especialidades. Faço uma pergunta sorna: "Foi o senhor quem pegou ele?" O homem responde: "Não tenho tempo para pegar passarinhos."

OS EMBRULHOS DO RIO

Penso nas mãos que, em uma praia distante, vão desembrulhar essas coisas; na alegria com que no fundo da província a gente recebe os presentes.

O MATO

Então o homem esqueceu o trabalho e as promissórias, esqueceu a condução e o telefone e o asfalto, e saiu andando lentamente por aquele morro coberto de um mato viçoso, perto de sua casa.

O COMPADRE POBRE

A mulher dizia. Então ele fazia um cálculo do frete que pagara, mais do carreto da estação até a casa e cocava a cabeça com um ar engraçado: — Até que os ovos do compadre Zeferino não estão me saindo muito caros desta vez.

UM SONHO DE SIMPLICIDADE

Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?

OS TEIXEIRAS MORAM EM FRENTE

Tenho horror de contar vantagem, muita gente acha que eu quero desmerecer o Rio de Janeiro contando coisas de Cachoeira, isto é uma injustiça; a prova aqui está: eu reconheço que o Estádio do Maracanã é maior que o nosso campo, até mesmo o Pacaembu ê bem maior. Só que nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem jamais foi disputado tão palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a canelada, às vezes tapa a tapa.

AS TEIXEIRAS E O FUTEBOL

Às vezes aquela ou outra Teixeira voltava a gritar conosco — começavam por nos chamar de "meninos desobedientes" e acabavam nos chamando de "moleques", o que nos ofendia muito ("Moleque é a senhora!" — gritou Chico uma vez), mas de modo algum nos impedia de finalizar a pugna.

A VINGANÇA DE UMA TEIXEIRA

Deixamos de cumprimentar a que abrira a bola com o canivete; mesmo anos depois, já grandes, não lhe dávamos sequer bom dia. Não sei se foi feliz na existência, e espero que não; se foi, é porque praga de menino não tem força nenhuma.

CASA VIAJA NO TEMPO

Dentro em pouco outra menina de seis anos, filha dessa menina, estará sentada na mesma sala, sob a mesma lâmpada, e com seus dois olhinhos pretos verá o mesmo senhor calado, de cara triste.

A NENHUMA CHAMARÁS ALDEBARÃ

E se amanhã, na tua inquieta fantasia, quiseres dar esse nome a algo que ames, podes dá-lo sem remorso à égua fidalga que no galope deixa que o luar lhe beije as negras crinas, ou à mais bela flor no pélago marinho.

LEMBRANÇAS

Coisa de um ano depois, outra lembrança: eu ia para a escola quando encontrei com meninos que já vinham voltando, pois não ia haver aula. Perguntei por que, e eles gritaram alegremente: Rui Barbosa morreu! Rui Barbosa morreu! Juntei-me a eles e também comecei a gritar para todo o mundo: Rui Barbosa morreu! Nunca ouvira falar de Rui Barbosa, mas na mesma hora, pela conversa de gente grande fiquei informado de que: a) era o homem mais inteligente do Brasil, grande patriota que tinha assombrado o mundo inteiro; b) não valia nada porque tinha votado o estado de sítio e era um vendido, porque era o advogado da Light. Fiquei um tanto perplexo com estas informações e ainda mais (perplexidade alegre) por não haver aulas.

VELHAS CARTAS

“VOCÊ nunca saberá o bem que sua carta me fez..." Sinto um choque ao ler esta carta antiga que encontro em um maço de outras. Vejo a data, e então me lembro onde estava quando a recebi. Não me lembro é do que escrevi que fez tanto bem a uma pessoa. Passo os olhos por essas linhas antigas, elas dão notícias de amigos, contam uma ou outra coisa do Rio, e tenho curiosidade de ver como ela se despedia de mim. É do jeito mais simples: "A saudade de..."

NA FAZENDA DO FRADE

Me lembro da hora do almoço, os homens chegavam de cabelos suados; me lembro da hora do jantar, estava escurecendo, acendia-se um grande lampião e, ao longo dos longos bancos, corria um murmúrio — "a bênção, a bênção, Deus te abençoe, boa noite, boa noite, a bênção" —, era a gente se cumprimentando e se abençoando porque chegara a noite.


O FISCAL DA NOITE

O major comunicará ao coronel, este ao general, este ao Presidente da República. O Presidente da República expedirá mensagens congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no Paraíso.

NÓS, IMPERADORES SEM BALEIAS

do mundo se mandou para essa praia remota, muita gente dormiu lá em barracas, entre fogueiras acesas, e Pedro II também foi com gente de sua imperial família ver as baleias. O maior encanto da história é que não havia baleia nenhuma. Esse imperador saindo de seus paços, viajando em carruagem, subindo o morro a cavalo para ver as baleias, que eram boato, é uma coisa tão cândida, é um Brasil tão bobo e tão bom!

Não havia navios. Rimos, rimos, rimos, mas o poeta, de súbito, sério, apontou: olhem lá. Céus! Na distância das águas havia um mastro, nele uma flâmula que a brisa do Brasil beijava e balançava, antes te houvessem roto na batalha que servires a um povo de mortalha!

NÃO AMEIS À DISTÂNCIA!

Ao que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria, pessoa amada mesma, o seu vero cabelo, e o vero pêlo, o osso de seu joelho, sua terna e úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui — e isso não há.

AO CREPÚSCULO, A MULHER...

Contemplo-a... Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar Suas figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem Sua mão: de geração em geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha.

UMA TARDE, EM BUENOS AIRES...

E cumpri os ritos da multidão, comprei meu jornal, tomei meu café, li o placar das últimas notícias, fiquei um instante distraído mirando os frangos que giravam se tostando numa rotisseria.

O CRIME (DE PLÁGIO) PERFEITO

Acabara de ler uma crônica de Carlos Drummond de Andrade no Minas Gerais, órgão oficial de Minas, com um pseudônimo — algo assim como Antônio João, ou João Antônio, ou Manuel Antônio, não me lembro mais; ponhamos Antônio João. Botei papel na máquina, copiei a crônica rapidamente e lasquei o mesmo pseudônimo.

Daí para a frente encarreguei um menino da portaria, que estava aprendendo a escrever à máquina, de bater a crônica de Drummond para mim;

E Laio Martins sorria feliz, comentando com meu colega de redação: "O Rubem não quer assinar, mas que importa? Seu estilo é inconfundível!" O estilo era inconfundível e o chope era bem tirado; mas você pode ter a certeza, Carlos Drummond de Andrade, que muitas vezes eu o bebi à sua saúde, ou melhor, à saúde do Antônio João, isto é, à nossa.

Dos 25 mil-réis que Laio me pagava, eu dava 5 para o menino que batia à máquina; era muito dinheiro para um menino naquele tempo, e isso fazia o menino feliz. Enfim, lá em São Paulo, todos éramos felizes graças ao seu trabalho: Laio, o menino, os leitores e eu — e você em Minas não era infeliz.

Não creio que possa haver um crime mais perfeito

PENSAMENTOS EM ITATIAIA

A imaginar histórias tolas de velhas árvores que saberiam coisas, que sentiriam e guardariam pensamentos que alguém há muito tempo, há tanto tempo, teria pensado aqui. Ê um triste senhor gordo, triste como um pobre menino falando sozinho.

MENSAGEM QUE NÃO FOI MANDADA

Onde? Não importava; ainda meio dormindo eu tinha a ilusão de que, pensando intensamente em você, eu estava, de algum modo, naquele momento, ajudando você

AS PITANGUEIRAS D'ANTANHO

— Em meu quarteirão não há uma só casa de meu tempo de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo acabou: as casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido infância... Falta-lhe uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu.

E lembrei-me de meu espanto de menino quando ouvi dizer que uma família conhecida nossa, de Cachoeiro, estava querendo vender a casa. Vender a casa... Casa, para mim, era alguma coisa que fazia parte da própria família, algo que existia desde sempre e para sempre com a mesma família. Fiz uma pergunta ingênua e alguém respondeu: "É, eles vão vender a casa porque vão se mudar para Minas."

PESCARIA DE BARCO

Enfim, tudo isso são prazeres que um intelectual modesto pode usufruir em um país subdesenvolvido a esta altura do século, após 30 anos de labor relativamente honesto. Nos prazeres referidos não vai incluída a amada, que, por desamante, antes seria motivo de melancolia; mas, se sua presença é esquiva, sua lembrança às vezes é doce, principalmente quando servida com peixe, vinho e rede.

AS MENINAS

Eu devia estar triste quando vi as meninas, mas deixei um pouco minha tristeza para mirar com um sorriso a sua graça e a sua felicidade.

DESPEDIDA

O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titereteiro inábil

AMOR E OUTROS MALES

Eu andava pela rua e a sua lembrança era alguma coisa encostada em minha cara, travesseiro no ar; era um terceiro braço que me faltava, e doía um pouco; era uma gravata que me enforcava devagar, suspensa de uma nuvem.

AQUELE FOLHETO PERDIDO

O jornal reclama contra a demora na saída das mercadorias da Alfândega, que dá prejuízos ao Comércio, e diz candidamente: "estamos certos de que o governo não deixará de prestar a devida atenção". Pois sim, colega.

"Perdeu-se ou roubaram, na noite de 15 do corrente, a uma preta embriagada, uma trouxa de roupa suja, em que havia também uma panela de barro e um folheto." Penso nessa remota negra embriagada, nessa humilde trouxa de roupa suja, nessa panela de barro e nesse famoso folheto. Que dizia o folheto? Ah, negra cachaceira, que fizeste do folheto?

Perdeu-se, perdeu-se para sempre o folheto escondido numa panela de barro dentro da trouxa de roupa suja, nas mãos de uma negra bêbada. Venta, sudoeste frio, venta, acabrunha esse mar e este país tristonho, que se perdeu o folheto; e como encontrá-lo agora, cem anos depois, o folheto que seria a salvação do povo; que traria a última palavra de esperança, e se perdeu na noite?

MEU IDEAL SERIA ESCREVER...

e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; é divina."

RECEITA PARA MAL DE AMOR

Sei como você está sofrendo, e prefiro lhe responder assim pelas páginas de uma revista — fazendo de conta que me dirijo a um destinatário suposto.

ÀS DUAS HORAS DA TARDE DE DOMINGO

Houve um momento, aquele momento em que a carne se faz alma; e depois, muito depois, me disseste a mesma coisa que eu sentira, aquele momento suspenso no ar como uma flor, o estranho silêncio, sim, te lembras!

UMA CERTA AMERICANA

Nem ela queria ir, dizia que não podia deixar a festa; tivemos um clinch amoroso (o que chamamos pega em português) atrás de uma barraca de material, mas emergiram da escuridão dois feridos de guerra com seus roupões bordeaux deixando entrever ataduras; e Alice, que estava fraquejando, repeliu-me para reconduzir os feridos a seus leitos.

MARINHEIRO NA RUA

Mas suas luzes estavam acesas; e eu senti confusamente que, estirada em sua rede, minha triste amada receberia bem cedo a brisa do mar, e despertaria, e se sentiria feliz em viajar para muito, muito longe, feliz, sem pensar em mim, sem precisar de mim

A MOÇA CHAMADA PIERINA

Mandei-lhe uma vez um recado escrito em um aeroplano de papel que, depois de várias voltas, embicou em direção à sua janela e lhe foi bater de encontro aos seios. Foi um êxito tão grande da aeronáutica internacional quanto o do foguete que chegou à Lua muitos anos depois. Sou, na verdade, um precursor sentimental dos mísseis teleguiados; e os seios de Pierina eram para mim remotos e divinos como a Lua.

O DESAPARECIDO

sou um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando teimosamente, docemente em ti, meu amor.

OS "ICEBERGS"

Com a minha raiva retrospectiva é claro que não havia mais nenhum iceberg, o mar estava pálido e chato, escurecendo, e as pessoas se retiravam, dizendo cada uma — "tenho muito que fazer".

O REI SECRETO DE FRANÇA

EM PARIS há coisas que não se entende bem, pois houve reis, imperadores e revoluções, de maneira que acontece, por exemplo, que no túmulo de Maria Antonieta não tem Maria Antonieta.

O homem suspirava olhando o relógio, contemplando vagamente o túmulo, ouvindo silvos de trens para os lados da gare de Lyon e vagos pios de pássaros nas árvores; o guarda se calara.       

O BOI VELHO MONOS OLHANDO O RIO

COMO é que foi feito o mundo, por que é que aqui tem este bicho e ali não tem? Olhem que já não pergunto por que não há girafas no Piauí nem hipopótamos no Acre. Não há, acabou-se. Mas o pequeno mistério do mono é que me fascina.

Na linguagem comum "mono" pode ser qualquer macaco, mas no interior do Brasil, onde as pessoas falam certo, assim se chama apenas um certo macaco, cujo cartão de visitas em latim é Eriodes arachnoides. É exatamente o maior macaco do Brasil, país, como se sabe, de grande macacada; como nas Américas não temos gorilas, o rei da macacada é o nosso prezado mono, com seus setenta centímetros de corpo e mais setenta de cauda. É fácil de distinguir — ensina Rodolpho Von Ihering, — pelo seu polegar atrofiado, um simples coto sem unha. Goeldi (não o nosso querido gravador, mas o pai dele) diz que a gente encostando o dedo na extremidade da cauda de um mono morto de fresco, ele (o mono) agarra o dedo da gente. Nunca brinquei com mono morto para conferir.

Mas quando chegaram ao rio Doce, pararam. Ali no Espírito Santo o rio tem centenas de metros de largura. A derrubada e os incêndios começaram do lado de cá, na margem sul. Imagino os olhos tristes dos grandes monos olhando, dos altos galhos da floresta, a grande massa líquida — e, do outro lado, a Floresta Proibida, ou a Terra Prometida dos Monos Perseguidos.

APARECEU UM CANÁRIO

Vem também, às vezes, um casal de sanhaços; ainda esta manhã, às 5hl5m, ouvi canto de sanhaço lá fora; freqüentam ou uma certa antena de televisão (sempre a mesma) ou o pinheiro do Paraná que sobe, vertical, até minha varanda.

Depois desceu para a estante, voou para cima do bar. Consegui colocar a gaiola (com a portinha aberta, presa por um barbante) bem perto dele, sem que ele o notasse; andei de quatro, rastejei, estalei os dedos, assobiei — venci. Quando telefonei para o táxi ele já tinha bebido água e comido alpiste, e estava tomando banho. Dias depois, quando voltei de Minas, ele estava cantando que era uma beleza.

CARTA DE GUIA DE CASADOS

A quem tem mulher brava, ele aconselha a se apartar das cortes e grandes lugares, pois "quem grita no despovoado é menos ouvido". Desconfia da mulher muito bonita; e diz da feia que "é pena ordinária, porém que muitas vezes ao dia se pode aliviar, tantas quantas seu marido sair de sua presença. Considere que mais vale viver seguro no coração que contente nos olhos; e desta segurança viva contente".

OS POBRES HOMENS RICOS

UM AMIGO meu estava ofendido porque um jornal o chamou de boa-vida. Vejam que país, que tempo, que situação! A vida deveria ser boa para toda gente; o que é insultuoso é que ela o seja apenas para alguns.

"Dinheiro é a coisa mais importante do mundo." Quem escreveu isso não foi nenhum de nossos estimados agiotas. Foi um homem que a vida inteira viveu de seu trabalho, e se chamava Bernard Shaw. Não era um cínico, mas um homem de vigorosa fé social, que passou a vida lutando, a seu modo, para tornar melhor a sociedade em que vivia —, e em certa medida o conseguiu. Ele nos fala de alguns homens ricos: "Homens ricos ou aristocratas com um desenvolvido senso de vida — homens como Ruskin, William Morris, Kropotkin — têm enormes apetites sociais... não se contentam com belas casas, querem belas cidades... não se contentam com esposas cheias de diamantes e filhas em flor; queixam-se porque a operária está mal vestida, a lavadeira cheira a gim, a costureira é anêmica, e porque todo homem que encontram não é um amigo e toda mulher não é um romance... sofrem com a arquitetura da casa do vizinho..."

Esse "apetite social" é raríssimo entre os nossos homens ricos; a não ser que "social" seja tomado no sentido de "mundano". E nossos homens de governo têm uma pasmosa desambição de governar.

Vi, há tempos, um conhecido meu, que se tornou muito rico, sofrer horrorosamente na hora de comprar um quadro. Achava o quadro uma beleza, mas como o pintor pedia tantos contos ele se perguntava, e me perguntava, e perguntava a todo mundo se o quadro "valia" mesmo aquilo, se o artista não estaria pedindo aquele preço por sabê-lo rico, se não seria "mais negócio" comprar um quadro de fulano. Fiquei com pena dele, embora saiba que numa noite de jantar e boate ele gaste tranqüilamente aquela importância, sem que isso lhe dê nenhum prazer especial. Fiquei com pena porque realmente ele gostava do quadro, queria tê-lo, mas o prazer que poderia ter obtendo uma coisa ambicionada era estragado pela preocupação do negócio. Se não fosse pelo pintor, que precisava de dinheiro, eu o aconselharia a não comprar.

Homens públicos sem sentimento público, homens ricos que são, no fundo, pobres-diabos — que não descobriram que a grande vantagem real de ter dinheiro é não ter que pensar, a todo momento, em dinheiro...
  
MOSCAS, E TETO AZUL

AMIGOS dizem-me: pinte o teto de sua cozinha de azul, assim não entrarão moscas. Desço a escada sonhador e perplexo; será verdade? Quem descobriu que moscas não amam teto azul, esse delicadíssimo segredo da construção civil, fino mergulho na sensibilidade aérea do' inseto aborrecido para nós, mas em si mesmo respeitável como todo ser? Faz o homem sua casa e não quer moscas, pinta de azul seu teto, moscas chegam até a janela, olham lá dentro para cima, pensam: pintou de azul o teto, ele não nos ama, adeus.

A relação mosca-homem é incessante no mundo, tanto que o homem a chama oficialmente Musca domestica, celebrando seu amor à casa do homem, imaginando talvez que não havia moscas antes de haver casas.

O HOMEM DO MEDITERRÂNEO

Um burrico, ali perto, espera a hora de escurecer, de sentir um peso nas costas e de marchar lentamente de volta à casa: o homem lhe dará a ordem numa só palavra resmungada.

Como o Brasil está longe, além dos mares, das gerações! (Mas, mesmo na minha loucura mansa, perdida toda a memória, talvez eu guardasse um certo nome de mulher — e o repetisse baixinho, comigo mesmo, quando, perante um desses mármores lavados pelas chuvas, dourados pelos sóis, eu me lembrasse vagamente da pele de seu corpo e sentisse, talvez, uma confusa, violenta vontade de chorar.)

CONFISSÕES DE UM EMBAIXADOR

Do fraque, da casaca e de outras roupas de rigor lhe direi, amigo, que prefiro andar de calça e paletó-saco; mas por isso mesmo que nunca liguei muito a roupas, pouco me importa vestir as de gala. Elas são, para um embaixador, roupa de serviço — "roupinha da briga", como se diz no Rio — e não honram nem desonram mais quem a veste que o macacão ao mecânico. E por mais antipáticas e ridículas que possam parecer ao homem do povo, que nunca as usa, têm isto de simpático e mesmo democrático: são uniformes. Igualam as pessoas que as vestem; nada se parece mais a um homem de smoking que outro homem de smoking; o do rico não é muito melhor que o do pobre, e todos se confundem em qualquer reunião. Esse caráter igualitário (dentro de um certo meio) das roupas de homem contrasta com os trajes femininos; em toda festa as mulheres mais ricas ou de mais bom gosto aparecem com vestidos mais caros ou mais elegantes que os das outras; há uma competição permanente, que os cronistas mundanos acirram e os comentários das amigas e inimigas movimentam. De chapéus femininos, nem se fala, tal a variedade e tão tênues os limites entre o sublime e o ridículo; pois eu comprei uma cartola no Chiado, e ela é perfeitamente igual a qualquer outra cartola de Marrocos, e deste mundo.

Do protocolo, direi que este mundo tem suas regras, como todo convento as tem. Antigamente, quando se encontravam chefes de Estado ou embaixadores de vários países, cada um se achava com mais direitos que o outro, e merecedor de mais honrarias. Isso dava motivo a muitas disputas vãs.

DOMINGO: FUTEBOL EM CASABLANCA

A essa altura meu amigo chileno já estava de pé, aos brados, dizendo que era por causa dessa burrice que os franceses tinham sido postos para fora do Marrocos, da Indochina, como agora vão ter de sair da Argélia... Houve gritos vários, protestos e aplausos que a taquigrafia não registrou, e a certa altura o chileno se lembrou de dizer que aquele cavalheiro ali presente — eu — era Embaixador do Brasil e merecia ser tratado com respeito, pois bárbaro é o povo que trata mal diplomatas etc. etc.

Surgiu uma questão sobre quem jogava e não jogava futebol, eu querendo acalmar o chileno, o amigo do joli fazendo provocações, a senhora dando gritinhos enquanto que o homem que estava a seu lado intentava silenciá-la, afinal gritei — que futebol, isso nós, brasileiros, nós o jogamos, nós o jogamos, ah, seguramente, isso nós fazemos! Gritei isso em francês, com gestos tão violentos em direção ao 70/1 que era evidente que éramos também campeões de tapa na cara; parti meio às cegas para cima do homem, aí foi o chileno que me agarrou e me aplacou, a mim, pai de Pele, tio de Garrincha, primo de Didi, irmão de Nílton Santos, defendendo a honra da minha família de plantadores de caoutchouc... Bem, a moral da história é que embaixador não deve ir a jogo de futebol, esta é que é a verdade.

VOCÊ VENDO NÃO ACREDITA

QUEM viaja tem alucinações. Posso oferecer o testemunho de vários brasileiros que ouviram comigo, em um restaurante de Tânger, uma canção árabe dizer, entre muitas coisas incompreensíveis, que "o nosso Tancredo Neves nasceu em São João dei Rei". Alguns a princípio não acreditaram; mas fizemos repetir a canção duas, três vezes (bastava pedir "a do Tancredo Neves") e era indubitavelmente aquilo...

Perto de Tetuan paramos uma tarde para atender ao pedido de socorro de um automobilista enguiçado. O carro era um Renault velho, com placa de Ujda. Enquanto meu chofer ia examinar o motor do carro com um dos viajantes, eu me aproximei de outro. Num relance vi de quem se tratava — e cuidei imediatamente de disfarçar, pois havia mais dois passageiros no carro. Ele sem dúvida também me reconheceu, pois tratou de desviar o olhar e se pôs a conversar nervosamente em árabe com um velho que estava a seu lado. Mil coisas me vieram à mente para explicar aquela presença do General Cordeiro de Faria, antigo comandante da Artilharia da FEB, em carro com a placa de Ujda, da fronteira da Argélia conflagrada. Segredo militar-político-diplomático de alto tope, como dizem os americanos.

LEMBRANÇA DO COMPADRE JOAQUIM

Filho de pobre é feito criação de peru, perde-se muito. Anos depois eu soube que tinha dado uma peste na casa do compadre Joaquim Capixaba e ele perdera vários filhos, inclusive o maiorzinho que já ajudava; mas meu afilhado João, esse se salvara. E o Joaquim dizia a diversas pessoas: — Devoção forte é essa do compadre Rubes em São João! E o Santo reconhece!

MAIS UMA DESILUSÃO AMOROSA

Para falar com franqueza foram tantos os textos que me empurraram durante o curso, que esses mesmos versos tão citados eu não poderia garantir se eram de Le Cid ou de outra peça de Corneille — ou, quem sabe, de Racine... Mas a lembrança vital que eu guardei de Le Cid era aquela, de muitas "bolas de ouro" exprimindo sentimentos fidalgos de renúncia, de sacrifício, além de uma idealização de Chimène que, por sinal, se parecia muito com certa moça que morava do outro lado do Itapemirim...

A esta altura, atrás de mim, muitos espectadores riram, como se estivessem assistindo a uma farsa. Mas eu não ri. Eu estava triste, decepcionado, vazio por dentro. Muitas mulheres já me enganaram ou desiludiram nesta vida; mas no fundo de meu coração cachoeirense de treze anos eu continuava secretamente a adorar Chimène... E era uma boa bisca.
  
À SOBREVIVÊNCIA DO ELEFANTE

HOUVE uma época em que se achava que o elefante ia acabar, devido à matança dos caçadores de safáris e mercadores de marfim; um bicho daqueles, que dá uma só cria de três em três anos, não poderia agüentar; e até houve um francês que escreveu um romance bonito, Raízes do Céu, Prêmio Goncourt de anos atrás, cujo personagem principal era um filósofo amigo dos elefantes que matava homens que caçavam elefantes.

Os cientistas dizem que já houve 352 espécies de elefantes, das quais só restam duas; mesmo sem a ruindade e a cobiça do homem, aquele grande bicho não teria grande chance de sobreviver; é um animal, que precisa comer demais para sustentar o corpo desconforme, além do que é um bicho errado, que mal digere a metade do que come e é muito sujeito a doenças, inclusive diabete, antraz, caxumba, gripe comum; ainda bem que elefante não usa lenço, porque não haveria lençol que chegasse. Entretanto, o futuro do elefante hoje em dia" está garantido; o elefante é hoje um bom negócio e até, quem sabe, poderíamos importar elefantes.

Naquele dia vi, entre muitos outros bichos, centenas de elefantes; à noite sonhei com elefantes e, como não há jogo do bicho em Uganda, no dia seguinte não joguei no elefante, mas comprei dois livros sobre elefantes. Há muitos livros escritos sobre essa mimosa criatura, que desde a antiguidade fascina a imaginação humana e muito tem trabalhado em guerras, circos e engenharia civil; mas agora ele está dando dinheiro é no ramo do turismo, como explicarei amanhã.

AINDA SOBRE ELEFANTES

O PRINCIPAL defeito do elefante é, como eu ia dizendo, o de certos políticos brasileiros: é um bicho interessante, mas come demais. Gosta de capim novo, de brotos e frutas silvestres, mas gosta principalmente de cana-de-açúcar, manga, banana, tudo que é plantação do homem, e devora uma roça inteira em uma noite. Passa 16 horas por dia comendo. Tem um apetite latifundiário, incompatível com qualquer tipo de reforma agrária. Para o Nordeste não serve.

Mas para a Amazônia — me perguntava um amigo português em Quênia — vocês têm lá tanto espaço, por que não importam elefantes? O governo aqui está cobrando 75 libras pela licença para matar um elefante, se o sujeito quiser matar um segundo, este lhe custará 100 libras. E só se pode matar macho, e em certos lugares em que o número deles cresceu demais para incomodar a lavoura; mas a renda maior do turismo está nas divisas trazidas pelas pessoas que vêm visitar os parques nacionais, só para ver e fotografar elefantes e outros bichos em liberdade. Calcula-se que só em Uganda existem hoje uns 11 mil elefantes, no Congo haverá uns 100 mil. Hoje os governos não somente protegem o elefante, como também impedem que ele, sob essa proteção, se propague demasiado, invadindo as terras de lavoura. E veja aí nessas lojas quanta coisa de marfim se faz, que bonitas botinas de pele de orelha de elefante, bolsas de elefante; note que ainda se come muito elefante, carne seca de elefante é muito boa, acho que daria certo em feijoada.

não é à toa que ele é parente do peixe-boi — e também gosta muito de migrar, às vezes sem motivo aparente, em poucos anos andaria pelo Acre. É verdade que dá leite (elefantinho só desmama depois de dois anos) e até que neste ponto a elefanta é bem mais elegante que a vaca, pois as mamas ficam entre os membros dianteiros, como acontece com as mais distintas damas da nossa sociedade.

PARECE QUE ERRARAM A CONTA

Sei que não adianta reclamar, mas acho que fui roubado. Contaram-me dez anos a mais... Naturalmente somaram tudo, tudo, inclusive o tempo que passei, vamos dizer, perdendo tempo. Por exemplo: andando atrás de mulher que não queria saber de mim. Isso não devia valer. Que me marcassem agora 45 anos vá lá. Cinqüenta, francamente, acho um pouco demais, e um pouco demasiado de repente. Parece que não há remédio senão aceitar. Aceito resmungando, como quem paga, de má vontade, uma conta de bar que está achando exagerada.

PESSOAS QUE ACONTECEM

Uma vez, em Cachoeira, João Madureira e eu, ainda rapazolas, saímos a passarinhar. Creio que ele levava um pio de inhambu ou de macuco. Eu levava apenas minha espingarda; sou homem de ouvido ruim, tanto que contam que uma vez que piei um macuco, meia hora depois apareceu o "soberbo galináceo" (é assim que se diz no disco de vozes de aves do Brasil feito pela família Coelho, fabricante de pios de caça na ilha da Luz, e que vocês não encontram em nenhuma casa de discos, mas em casas de armas) e quando eu levava a arma a cara o macuco levantou uma pata e disse: "Não atire não, moço, eu só vim ver quem é que estava piando macuco tão mal."
  
ALGUMAS PONDERAÇÕES CATABÓLICAS

Um médico meu amigo aconselha para o verão não apenas mantimentos mas também literatura catabólica. Evitar grandes versos de Schmidt ou odes de Vinicius, consumir poemas magros de João Cabral ou Carlos Drummond de Andrade. Tirar da parede quadros de Di Cavalcanti, reproduções de Rubens ou Renoir: engordam horrorosamente. Não ouvir bossa-nova: tem muito açúcar, é melhor traçar saladas de cool jazz em estado natural.

Esculturas de Bruno Giorgi são mais recomendáveis que as de Alfredo Ceschiatti. Pintor francês atual, o mais catabólico é mesmo Buffet. Ouvir acordeão engorda tanto como romance de José de Alencar e Jorge Amado; leiam Machado de Assis e Graciliano Ramos, os catabólicos da prosa brasileira.

Crônica, se gostar, que seja do gênero meio aflito, como José Carlos Oliveira; Pongetti, Braga e Elsie Lessa engordam um pouco; cuidado com os salgadinhos e frituras do Stanislaw Ponte Preta! Entrevista de candidato sempre contém farináceos... O melhor é não ler nada. Não ler, não amar, não comer; morrer, dormir, sonhar talvez, quem sabe...
   
OS CARNAVAIS DE ANTIGAMENTE

O moço de família que tinha a coragem suprema de fazer essa exibição me parecia um herói do vício. Moças recusavam-se a dançar com ele na noite seguinte, no baile dos Caçadores; era, durante algum tempo, um intocável, um imundo. Mas os homens mais velhos comentavam aquilo sorrindo, com simpatia : rapaziadas...

EM ROMA, DURANTE A GUERRA

Contarei hoje apenas uma aventura minha de retaguarda. Um dia, num bar de Roma, havia uma elegante senhora loura que tinha cigarro mas não tinhas fósforos. Um galante  correspondente de guerra que estava na mesa ao lado sacou de seu isqueiro e pediu-lhe licença para acender seu cigarro. Depois, com muita delicadeza e timidez, disse que havia chegado aquele dia em Roma, e não conhecia ninguém; queria saber se ela não levaria a mal sua ousadia de convidá-la para sua mesa. Assim eu (que outro não era, como já adivinhastes, o galante correspondente) travei relações com uma espiã, pois é evidente que mulher loura com cigarro e sem fósforo só pode ser espiã. Ela falava um italiano perfeito, o que também faz parte de seu ofício; mas apesar disso perguntei-lhe se era italiana. Disse que era e não era. Bonita resposta, pensei eu, reparando em seus olhos de um azul cinzento, e brinquei: "não vai me dizer que é da Abissínia!" Ela riu; era de Trieste; confessei-lhe que eu era de Cachoeiro de Itapemirim, ela repetiu o nome de minha cidade com tanta graça que me apaixonei.

Imediatamente aproximou-se de mim um major inglês de grandes bigodes e muito polidamente me pediu que o procurasse mais tarde em seu apartamento no mesmo hotel. Adiantou que trabalhava na contra-espionagem, e que a senhora que estava em minha companhia era suspeita; mas que eu não a deixasse perceber que fora informado disso.

No dia seguinte o major me esclareceu: a minha amiga era tcheca de raça alemã, filha de um industrial ligado aos nazistas. Prometi ao major transmitir-lhe qualquer pergunta ou pedido suspeito que ela me fizesse; mas eu devia voltar logo para a linha de frente e a minha encantadora mata-harizinha não havia meio de me tentar extorquir o segredo da futura bomba atômica nem o esquema da próxima ofensiva aliada.

A MULHER E SEU PASSADO

ELA conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que passou. Afinal ela também sorri: "Você é meu amigo ou amigo da onça?"

O PAÍS DE MINHA NOIVA

Mas não há tempo de guerra no país de minha noiva. Há tempo de jabuticaba, de açucena, de jogar bilboquê e de ovas de tainha. Há muitos tempos. O tempo se divide em alegres tempos, e flui suave e cordial. Às vezes se detém um pouco, para que eu possa mirar a minha noiva. Quando a minha noiva me mira a mim, o Tempo se imobiliza inteiramente. Só eu estremeço. "Amo tanto e estremeço esta terra!"
  
CAPÍTULO II — DA TERRA

No país de minha noiva não há trabalhadores rurais, nem mesmo camponeses. Há camponios. Eles não se juntam em ligas nem sindicatos, mas em grupos corais, à hora do Ângelus. Ninguém pensa em dividir a terra, mas em laborar e colher.
Art. 1º. A terra é indivisível.
Art. 2º. A terra é toda de Deus.
Art. 3º. No uso das praias e dos relvados é assegurada a primazia dos adolescentes, para seus jogos e bailados.
§ 1º. As ninfas são locadas nos bosques, à razão de treze por alqueire. São os chamados grupos de treze.
No país de minha noiva não há prisões; apenas corações cativos.
Mas ainda a estes é permitida uma certa leviandade. A alegria de minha noiva, quando descíamos no elevador, me encheu de sol meu coração. Mas agora não há mais elevadores, pois não é permitida a construção de edifícios. Tampouco a de favelas. As pessoas habitam choupanas ou mansões, segundo a idade, o estado de espírito e os sentimentos religiosos. As mansões são antigas e as choupanas são felizes. A minha noiva é jucunda e bela; assim é o seu país.

"ENQUÊTE" PELO TELEFONE

A REDATORA de um jornal me telefona e pede minha opinião sobre a nova moda dos seios nus. Esse tipo de enquetinha pelo telefone me aflige, pois assim de momento jamais me ocorre uma resposta passavelmente inteligente.
Respondo com evasivas, mas ela insiste. Acho bonito? Acho imoral?
— Ah, minha filha, só vendo.
— Só vendo, como?
— Você põe o tal monoquíni e venha aqui em casa. Sem ver eu não posso dar uma opinião.
Ela me chama de engraçadinho, muito zangada, o que me consterna um pouco. Afinal de contas é uma colega de jornalismo, uma jovem que está trabalhando, ganhando sua vida, e eu respeito muito isso, não gosto de destratar ninguém. Peço-lhe desculpas, se caso minha resposta a chocou. Ela faz uma pergunta imprevista:
— O senhor deixaria sua filha usar essa moda?
— Deixaria... isto é, não sei...
Um silêncio. Ela parece hesitar um pouco em fazer outra pergunta, e afinal se decide:
— Que idade tem sua filha?
Com delicadeza protesto que não desejo dar uma entrevista sobre minha família. Não gostaria de ver filha minha envolvida nessa coisa de entrevista de jornal; dá uma fofoca...
— Mas o senhor não pode me dizer que idade tem sua filha?
— Não, não posso. Para lhe falar com franqueza, eu não tenho, nunca tive uma filha. É um ponto de melancolia em minha vida. Ter uma filha! Como eu gostaria de minha filha!
— Mas então como é que o senhor disse que deixava?
— Que deixava o quê?
— Ora, sua filha usar a moda nova! O senhor está brincando? Se não quer dar entrevista, é uma coisa, mas se o senhor quer brincar comigo não acho graça nenhuma, não precisa inventar que tem uma filha...
— Foi você quem falou de minha filha, não fui eu. Acredite que não estou brincando, estou falando sério: tenho mesmo uma certa tristeza em não ter tido uma filha. Agora é tarde, mesmo porque para ter uma filha seria preciso ter mulher; isso complica muito as coisas, não acha? Esse negócio de ter mulher é fogo. Enfim, o melhor é a gente se conformar; quem não tem filha, o jeito é gostar das filhas dos outros... Você é filha de quem?
— Eu? O que é que o senhor tem com isso? Quer saber de uma coisa? Eu até aprecio as coisas que o senhor escreve, nunca pensei que tivesse uma conversa tão cretina. Fico novamente consternado, e procuro me desculpar:
— Bem, eu não quero insinuar que você seja filha de ninguém.
Pelo amor de Deus, não me leve a mal, mas esse negócio de entrevistinha pelo telefone não dá certo mesmo, minha filha...
— Não me chame de minha filha!
— Desculpe, é uma maneira de dizer, eu não quero insinuar nada, me acredite. E olhe: se você quiser usar a tal moda, não se preocupe comigo, está ouvindo? Eu já tenho visto tanta coisa neste mundo que, francamente...
Mas corto a frase no meio, porque ela desligou.

ASSIM AMA O COLIBRI

Sabe-se que entre os passarinhos o macho é sempre muito mais bonito que a fêmea; até em aves de quintal, como o galo e o peru, isso é fácil de ver, sem falar no pavão, esse show imperial de cores feitas para seduzir a feiota da pavoa. Quando sente palpitar seu coração de amor, o colibri cuida de cativar a fêmea, e então dá início à Parada Nupcial, que Ruschi divide em cinco fases.

MESTRE AURÉLIO NTRE AS PALAVRAS

Tive algumas desilusões, confesso; sempre pensei que trintanário fosse um sujeito muito importante, talvez da corte papal, e mestre Aurélio afirma que é apenas o criado que vai ao lado do cocheiro na boléia do carro, e que abre a portinhola, faz recados, etc. Enfim, o que nos tempos modernos, em Pernambuco, se chama "calunga de caminhão". E sicofanta, que eu julgava um alto sacerdote, é apenas um velhaco. Cuidado, portanto, com os trintanários sicofantas!

A MOÇA DO CARNAVAL

Já conheci muita moça bonita, de ar sério e recatado, que passa o ano inteiro cultivando o mito da própria altivez e no carnaval se veste de prata, de escrava ou de havaiana e se esbalda, sorrindo e rebolando para todos, cantando as letras maliciosas, saltando durante horas em volta do salão, em cima da cadeira ou da mesa.

A TRAIÇÃO DAS ELEGANTES

Que aconteceu? Ninguém pode duvidar da elegância dessas damas, mesmo porque muitas não fazem outra coisa a não ser isto: ser elegantes. Elas são parte do patrimônio emocional e estético da Nação, são respeitadas, admiradas, invejadas, adoradas desde os tempos de Sombra; vivem em nichos de altares invisíveis, movem-se em passarelas de supremo prestígio mundano — e subitamente, oh! ai! ui! Um misterioso Satanás as precipita no inferno imóvel da paspalhice e do tédio, e as prende ali, com seus sorrisos parados, seus olhos fixos a fitar o nada, estupidamente o nada — quase todas, meu Deus, tão "shangai", tão "shangai" que nos inspiram uma certa vergonha — o Itamarati devia proibir a exportação desse número da revista para que não se riam demasiado de nós lá fora!

Direis que essa derrota das "Mais Elegantes" não importa... Importa! As moças pobres e remediadas, a normalista, a filha do coronel do Exército que mora no Grajaú, a funcionária da coletoria estadual de Miracema, a noiva do eletricista — todas aprenderam a se mirar nessas deusas, a suspirar invejando-as, mas admirando-as; era o charme dessas senhoras, suas festas, suas viagens, suas legendas douradas de luxo que romantizavam a riqueza e o desnível social; eram aves de luxo que enobreciam com sua graça a injustiça fundamental da sociedade burguesa.

Elas tinham o dever de continuar maravilhosas, imarcescíveis, magníficas. É possível que pessoalmente assim continuem; mas houve aquele momento em que um vento escarninho as desfigurou em plebéias enfeitadas, em caricaturas de si mesmas, espaventosas e frias.
  
VALENTE MENINA!

Deitei-me na rede, sentindo dor de cabeça e um certo desgosto por mim mesmo. Eu poderia ser pai dessa moça — e me pergunto o que sentiria, como pai, se soubesse de uma aventura sua, como essa, com um homem de minha idade. Tolice! Os pais nunca sabem nada, e quando sabem não compreendem; estão perto e longe demais para entender. Ele, esse pai de quem ela falava tanto, não acreditaria se a visse entrar pela primeira vez em minha casa, como entrou, com sua bolsa a tiracolo, o passo leve e o riso nervoso.










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