Resumo do Conto A Traição das Elegantes
Por Rubem
Braga
O
MISTÉRIO DA POESIA
Se
na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um
sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem
mais profundas...
CONVERSA
DE COMPRA DE PASSARINHO
Completamente
escravo do homem, o coleirinho põe-se a cantar, mostrando suas especialidades.
Faço uma pergunta sorna: "Foi o senhor quem pegou ele?" O homem responde:
"Não tenho tempo para pegar passarinhos."
OS
EMBRULHOS DO RIO
Penso
nas mãos que, em uma praia distante, vão desembrulhar essas coisas; na alegria
com que no fundo da província a gente recebe os presentes.
O
MATO
Então
o homem esqueceu o trabalho e as promissórias, esqueceu a condução e o telefone
e o asfalto, e saiu andando lentamente por aquele morro coberto de um mato
viçoso, perto de sua casa.
O
COMPADRE POBRE
A
mulher dizia. Então ele fazia um cálculo do frete que pagara, mais do carreto
da estação até a casa e cocava a cabeça com um ar engraçado: — Até que os ovos
do compadre Zeferino não estão me saindo muito caros desta vez.
UM
SONHO DE SIMPLICIDADE
Detenho-me um instante,
entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos
cigarros? Eles não me dão prazer algum; apenas me fazem falta. São uma
necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de
mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco,
saber intrigas?
OS
TEIXEIRAS MORAM EM FRENTE
Tenho
horror de contar vantagem, muita gente acha que eu quero desmerecer o Rio de
Janeiro contando coisas de Cachoeira, isto é uma injustiça; a prova aqui está:
eu reconheço que o Estádio do Maracanã é maior que o nosso campo, até mesmo o
Pacaembu ê bem maior. Só que nenhum dos dois pode ser tão emocionante, nem
jamais foi disputado tão palmo a palmo ou pé a pé, topada a topada, canelada a
canelada, às vezes tapa a tapa.
AS
TEIXEIRAS E O FUTEBOL
Às vezes aquela ou outra Teixeira
voltava a gritar conosco — começavam por nos chamar de "meninos
desobedientes" e acabavam nos chamando de "moleques", o que nos
ofendia muito ("Moleque é a senhora!" — gritou Chico uma vez), mas de
modo algum nos impedia de finalizar a pugna.
A
VINGANÇA DE UMA TEIXEIRA
Deixamos de cumprimentar a
que abrira a bola com o canivete; mesmo anos depois, já grandes, não lhe
dávamos sequer bom dia. Não sei se foi feliz na existência, e espero que não;
se foi, é porque praga de menino não tem força nenhuma.
CASA
VIAJA NO TEMPO
Dentro
em pouco outra menina de seis anos, filha dessa menina, estará sentada na mesma
sala, sob a mesma lâmpada, e com seus dois olhinhos pretos verá o mesmo senhor
calado, de cara triste.
A NENHUMA CHAMARÁS ALDEBARÃ
E se amanhã, na tua inquieta
fantasia, quiseres dar esse nome a algo que ames, podes dá-lo sem remorso à
égua fidalga que no galope deixa que o luar lhe beije as negras crinas, ou à mais
bela flor no pélago marinho.
LEMBRANÇAS
Coisa de um ano depois,
outra lembrança: eu ia para a escola quando encontrei com meninos que já vinham
voltando, pois não ia haver aula. Perguntei por que, e eles gritaram
alegremente: Rui Barbosa morreu! Rui Barbosa morreu! Juntei-me a eles e também
comecei a gritar para todo o mundo: Rui Barbosa morreu! Nunca ouvira falar de Rui
Barbosa, mas na mesma hora, pela conversa de gente grande fiquei informado de
que: a) era o homem mais inteligente do Brasil, grande patriota que tinha
assombrado o mundo inteiro; b) não valia nada porque tinha votado o estado de
sítio e era um vendido, porque era o advogado da Light. Fiquei um tanto perplexo
com estas informações e ainda mais (perplexidade alegre) por não haver aulas.
VELHAS
CARTAS
“VOCÊ
nunca saberá o bem que sua carta me fez..." Sinto um choque ao ler esta
carta antiga que encontro em um maço de outras. Vejo a data, e então me lembro
onde estava quando a recebi. Não me lembro é do que escrevi que fez tanto bem a
uma pessoa. Passo os olhos por essas linhas antigas, elas dão notícias de
amigos, contam uma ou outra coisa do Rio, e tenho curiosidade de ver como ela
se despedia de mim. É do jeito mais simples: "A saudade de..."
NA
FAZENDA DO FRADE
Me lembro da hora do almoço,
os homens chegavam de cabelos suados; me lembro da hora do jantar, estava
escurecendo, acendia-se um grande lampião e, ao longo dos longos bancos, corria
um murmúrio — "a bênção, a bênção, Deus te abençoe, boa noite, boa noite,
a bênção" —, era a gente se cumprimentando e se abençoando porque chegara
a noite.
O
FISCAL DA NOITE
O major comunicará ao
coronel, este ao general, este ao Presidente da República. O Presidente da
República expedirá mensagens congratulatórias a Deus e a Albert Einstein, no
Paraíso.
NÓS,
IMPERADORES SEM BALEIAS
do mundo se mandou para essa
praia remota, muita gente dormiu lá em barracas, entre fogueiras acesas, e
Pedro II também foi com gente de sua imperial família ver as baleias. O maior
encanto da história é que não havia baleia nenhuma. Esse imperador saindo de
seus paços, viajando em carruagem, subindo o morro a cavalo para ver as
baleias, que eram boato, é uma coisa tão cândida, é um Brasil tão bobo e tão
bom!
Não
havia navios. Rimos, rimos, rimos, mas o poeta, de súbito, sério, apontou:
olhem lá. Céus! Na distância das águas havia um mastro, nele uma flâmula que a
brisa do Brasil beijava e balançava, antes
te houvessem roto na batalha que servires a um povo de mortalha!
NÃO
AMEIS À DISTÂNCIA!
Ao
que ama o que lhe importa não é a luz nem o som, é a própria, pessoa amada
mesma, o seu vero cabelo, e o vero pêlo, o osso de seu joelho, sua terna e
úmida presença carnal, o imediato calor; é o de hoje, o agora, o aqui — e isso
não há.
AO
CREPÚSCULO, A MULHER...
Contemplo-a...
Não, Deus não tem facilidade para desenhar. Ele faz e refaz sem cessar Suas
figuras, porque o erro e a desídia dos homens entorpecem Sua mão: de geração em
geração, que longa paciência Ele não teve para juntar a essa linha do queixo
essa orelha breve, para firmar bem a polpa da panturrilha.
UMA
TARDE, EM BUENOS AIRES...
E
cumpri os ritos da multidão, comprei meu jornal, tomei meu café, li o placar
das últimas notícias, fiquei um instante distraído mirando os frangos que giravam
se tostando numa rotisseria.
O
CRIME (DE PLÁGIO) PERFEITO
Acabara
de ler uma crônica de Carlos Drummond de Andrade no Minas Gerais, órgão oficial
de Minas, com um pseudônimo — algo assim como Antônio João, ou João Antônio, ou
Manuel Antônio, não me lembro mais; ponhamos Antônio João. Botei papel na
máquina, copiei a crônica rapidamente e lasquei o mesmo pseudônimo.
Daí
para a frente encarreguei um menino da portaria, que estava aprendendo a
escrever à máquina, de bater a crônica de Drummond para mim;
E Laio Martins sorria feliz,
comentando com meu colega de redação: "O Rubem não quer assinar, mas que
importa? Seu estilo é inconfundível!" O estilo era inconfundível e o chope
era bem tirado; mas você pode ter a certeza, Carlos Drummond de Andrade, que
muitas vezes eu o bebi à sua saúde, ou melhor, à saúde do Antônio João, isto é,
à nossa.
Dos
25 mil-réis que Laio me pagava, eu dava 5 para o menino que batia à máquina;
era muito dinheiro para um menino naquele tempo, e isso fazia o menino feliz.
Enfim, lá em São Paulo, todos éramos felizes graças ao seu trabalho: Laio, o
menino, os leitores e eu — e você em Minas não era infeliz.
Não creio que possa haver um crime mais perfeito
PENSAMENTOS
EM ITATIAIA
A
imaginar histórias tolas de velhas árvores que saberiam coisas, que sentiriam e
guardariam pensamentos que alguém há muito tempo, há tanto tempo, teria pensado
aqui. Ê um triste senhor gordo, triste como um pobre menino falando sozinho.
MENSAGEM
QUE NÃO FOI MANDADA
Onde?
Não importava; ainda meio dormindo eu tinha a ilusão de que, pensando
intensamente em você, eu estava, de algum modo, naquele momento, ajudando você
AS
PITANGUEIRAS D'ANTANHO
— Em meu quarteirão não há
uma só casa de meu tempo de menina. Se eu tivesse passado anos fora do Rio e
voltasse agora, acho que não acertaria nem com a minha rua. Tudo acabou: as
casas, os jardins, as árvores. É como se eu não tivesse tido infância... Falta-lhe
uma base física para a saudade. Tudo o que parecia eterno sumiu.
E
lembrei-me de meu espanto de menino quando ouvi dizer que uma família conhecida
nossa, de Cachoeiro, estava querendo vender a casa. Vender a casa... Casa, para
mim, era alguma coisa que fazia parte da própria família, algo que existia
desde sempre e para sempre com a mesma família. Fiz uma pergunta ingênua e
alguém respondeu: "É, eles vão vender a casa porque vão se mudar para
Minas."
PESCARIA
DE BARCO
Enfim, tudo isso são
prazeres que um intelectual modesto pode usufruir em um país subdesenvolvido a
esta altura do século, após 30 anos de labor relativamente honesto. Nos
prazeres referidos não vai incluída a amada, que, por desamante, antes seria motivo
de melancolia; mas, se sua presença é esquiva, sua lembrança às vezes é doce,
principalmente quando servida com peixe, vinho e rede.
AS
MENINAS
Eu
devia estar triste quando vi as meninas, mas deixei um pouco minha tristeza
para mirar com um sorriso a sua graça e a sua felicidade.
DESPEDIDA
O
inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos
sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titereteiro
inábil
AMOR
E OUTROS MALES
Eu
andava pela rua e a sua lembrança era alguma coisa encostada em minha cara,
travesseiro no ar; era um terceiro braço que me faltava, e doía um pouco; era
uma gravata que me enforcava devagar, suspensa de uma nuvem.
AQUELE
FOLHETO PERDIDO
O
jornal reclama contra a demora na saída das mercadorias da Alfândega, que dá
prejuízos ao Comércio, e diz candidamente: "estamos certos de que o
governo não deixará de prestar a devida atenção". Pois sim, colega.
"Perdeu-se ou roubaram,
na noite de 15 do corrente, a uma preta embriagada, uma trouxa de roupa suja,
em que havia também uma panela de barro e um folheto." Penso nessa remota
negra embriagada, nessa humilde trouxa de roupa suja, nessa panela de barro e
nesse famoso folheto. Que dizia o folheto? Ah, negra cachaceira, que fizeste do
folheto?
Perdeu-se, perdeu-se para
sempre o folheto escondido numa panela de barro dentro da trouxa de roupa suja,
nas mãos de uma negra bêbada. Venta, sudoeste frio, venta, acabrunha esse mar e
este país tristonho, que se perdeu o folheto; e como encontrá-lo agora, cem anos
depois, o folheto que seria a salvação do povo; que traria a última palavra de
esperança, e se perdeu na noite?
MEU
IDEAL SERIA ESCREVER...
e
que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito
velho dissesse: "Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em
toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história
não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo
tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que
já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou por acaso
até nosso conhecimento; é divina."
RECEITA
PARA MAL DE AMOR
Sei
como você está sofrendo, e prefiro lhe responder assim pelas páginas de uma
revista — fazendo de conta que me dirijo a um destinatário suposto.
ÀS
DUAS HORAS DA TARDE DE DOMINGO
Houve
um momento, aquele momento em que a carne se faz alma; e depois, muito depois,
me disseste a mesma coisa que eu sentira, aquele momento suspenso no ar como
uma flor, o estranho silêncio, sim, te lembras!
UMA
CERTA AMERICANA
Nem
ela queria ir, dizia que não podia deixar a festa; tivemos um clinch amoroso (o
que chamamos pega em português) atrás de uma barraca de material, mas emergiram
da escuridão dois feridos de guerra com seus roupões bordeaux deixando entrever
ataduras; e Alice, que estava fraquejando, repeliu-me para reconduzir os
feridos a seus leitos.
MARINHEIRO
NA RUA
Mas
suas luzes estavam acesas; e eu senti confusamente que, estirada em sua rede,
minha triste amada receberia bem cedo a brisa do mar, e despertaria, e se
sentiria feliz em viajar para muito, muito longe, feliz, sem pensar em mim, sem
precisar de mim
A
MOÇA CHAMADA PIERINA
Mandei-lhe
uma vez um recado escrito em um aeroplano de papel que, depois de várias
voltas, embicou em direção à sua janela e lhe foi bater de encontro aos seios.
Foi um êxito tão grande da aeronáutica internacional quanto o do foguete que
chegou à Lua muitos anos depois. Sou, na verdade, um precursor sentimental dos
mísseis teleguiados; e os seios de Pierina eram para mim remotos e divinos como
a Lua.
O
DESAPARECIDO
sou
um desaparecido cuja esmaecida, inútil foto se publica num canto de uma página
interior de jornal, eu sou o irreconhecível, irrecuperável desaparecido que não
aparecerá mais nunca, mas só tu sabes que em alguma distante esquina de uma não
lembrada cidade estará de pé um homem perplexo, pensando em ti, pensando
teimosamente, docemente em ti, meu amor.
OS
"ICEBERGS"
Com
a minha raiva retrospectiva é claro que não havia mais nenhum iceberg, o mar
estava pálido e chato, escurecendo, e as pessoas se retiravam, dizendo cada uma
— "tenho muito que fazer".
O
REI SECRETO DE FRANÇA
EM
PARIS há coisas que não se entende bem, pois houve reis, imperadores e
revoluções, de maneira que acontece, por exemplo, que no túmulo de Maria
Antonieta não tem Maria Antonieta.
O
homem suspirava olhando o relógio, contemplando vagamente o túmulo, ouvindo
silvos de trens para os lados da gare de Lyon e vagos pios de pássaros nas
árvores; o guarda se calara.
O
BOI VELHO MONOS OLHANDO O RIO
COMO
é que foi feito o mundo, por que é que aqui tem este bicho e ali não tem? Olhem
que já não pergunto por que não há girafas no Piauí nem hipopótamos no Acre.
Não há, acabou-se. Mas o pequeno mistério do mono é que me fascina.
Na
linguagem comum "mono" pode ser qualquer macaco, mas no interior do
Brasil, onde as pessoas falam certo, assim se chama apenas um certo macaco,
cujo cartão de visitas em latim é Eriodes arachnoides. É exatamente o maior
macaco do Brasil, país, como se sabe, de grande macacada; como nas Américas não
temos gorilas, o rei da macacada é o nosso prezado mono, com seus setenta
centímetros de corpo e mais setenta de cauda. É fácil de distinguir — ensina Rodolpho
Von Ihering, — pelo seu polegar atrofiado, um simples coto sem unha. Goeldi
(não o nosso querido gravador, mas o pai dele) diz que a gente encostando o dedo
na extremidade da cauda de um mono morto de fresco, ele (o mono) agarra o dedo
da gente. Nunca brinquei com mono morto para conferir.
Mas quando chegaram ao rio
Doce, pararam. Ali no Espírito Santo o rio tem centenas de metros de largura. A
derrubada e os incêndios começaram do lado de cá, na margem sul. Imagino os
olhos tristes dos grandes monos olhando, dos altos galhos da floresta, a grande
massa líquida — e, do outro lado, a Floresta Proibida, ou a Terra Prometida dos
Monos Perseguidos.
APARECEU
UM CANÁRIO
Vem
também, às vezes, um casal de sanhaços; ainda esta manhã, às 5hl5m, ouvi canto
de sanhaço lá fora; freqüentam ou uma certa antena de televisão (sempre a
mesma) ou o pinheiro do Paraná que sobe, vertical, até minha varanda.
Depois
desceu para a estante, voou para cima do bar. Consegui colocar a gaiola (com a
portinha aberta, presa por um barbante) bem perto dele, sem que ele o notasse;
andei de quatro, rastejei, estalei os dedos, assobiei — venci. Quando telefonei
para o táxi ele já tinha bebido água e comido alpiste, e estava tomando banho.
Dias depois, quando voltei de Minas, ele estava cantando que era uma beleza.
CARTA
DE GUIA DE CASADOS
A
quem tem mulher brava, ele aconselha a se apartar das cortes e grandes lugares,
pois "quem grita no despovoado é menos ouvido". Desconfia da mulher
muito bonita; e diz da feia que "é pena ordinária, porém que muitas vezes
ao dia se pode aliviar, tantas quantas seu marido sair de sua presença.
Considere que mais vale viver seguro no coração que contente nos olhos; e desta
segurança viva contente".
OS
POBRES HOMENS RICOS
UM AMIGO meu estava ofendido
porque um jornal o chamou de boa-vida. Vejam que país, que tempo, que situação!
A vida deveria ser boa para toda gente; o que é insultuoso é que ela o seja
apenas para alguns.
"Dinheiro
é a coisa mais importante do mundo." Quem escreveu isso não foi nenhum de
nossos estimados agiotas. Foi um homem que a vida inteira viveu de seu
trabalho, e se chamava Bernard Shaw. Não era um cínico, mas um homem de
vigorosa fé social, que passou a vida lutando, a seu modo, para tornar melhor a
sociedade em que vivia —, e em certa medida o conseguiu. Ele nos fala de alguns homens ricos: "Homens ricos ou aristocratas
com um desenvolvido senso de vida — homens como Ruskin, William Morris,
Kropotkin — têm enormes apetites sociais... não se contentam com belas casas,
querem belas cidades... não se contentam com esposas cheias de diamantes e filhas
em flor; queixam-se porque a operária está mal vestida, a lavadeira cheira a
gim, a costureira é anêmica, e porque todo homem que encontram não é um amigo e
toda mulher não é um romance... sofrem com a arquitetura da casa do
vizinho..."
Esse
"apetite social" é raríssimo entre os nossos homens ricos; a não ser
que "social" seja tomado no sentido de "mundano". E nossos homens
de governo têm uma pasmosa desambição de governar.
Vi, há tempos, um conhecido
meu, que se tornou muito rico, sofrer horrorosamente na hora de comprar um
quadro. Achava o quadro uma beleza, mas como o pintor pedia tantos contos ele
se perguntava, e me perguntava, e perguntava a todo mundo se o quadro "valia"
mesmo aquilo, se o artista não estaria pedindo aquele preço por sabê-lo rico,
se não seria "mais negócio" comprar um quadro de fulano. Fiquei com
pena dele, embora saiba que numa noite de jantar e boate ele gaste
tranqüilamente aquela importância, sem que isso lhe dê nenhum prazer especial.
Fiquei com pena porque realmente ele gostava do quadro, queria tê-lo, mas o
prazer que poderia ter obtendo uma coisa ambicionada era estragado pela
preocupação do negócio. Se não fosse pelo pintor, que precisava de dinheiro, eu
o aconselharia a não comprar.
Homens públicos sem
sentimento público, homens ricos que são, no fundo, pobres-diabos — que não
descobriram que a grande vantagem real de ter dinheiro é não ter que pensar, a
todo momento, em dinheiro...
MOSCAS,
E TETO AZUL
AMIGOS dizem-me: pinte o
teto de sua cozinha de azul, assim não entrarão moscas. Desço a escada sonhador
e perplexo; será verdade? Quem descobriu que moscas não amam teto azul, esse
delicadíssimo segredo da construção civil, fino mergulho na sensibilidade aérea
do' inseto aborrecido para nós, mas em si mesmo respeitável como todo ser? Faz
o homem sua casa e não quer moscas, pinta de azul seu teto, moscas chegam até a
janela, olham lá dentro para cima, pensam: pintou de azul o teto, ele não nos
ama, adeus.
A
relação mosca-homem é incessante no mundo, tanto que o homem a chama
oficialmente Musca domestica, celebrando seu amor à casa do homem, imaginando
talvez que não havia moscas antes de haver casas.
O
HOMEM DO MEDITERRÂNEO
Um
burrico, ali perto, espera a hora de escurecer, de sentir um peso nas costas e
de marchar lentamente de volta à casa: o homem lhe dará a ordem numa só palavra
resmungada.
Como
o Brasil está longe, além dos mares, das gerações! (Mas, mesmo na minha loucura
mansa, perdida toda a memória, talvez eu guardasse um certo nome de mulher — e
o repetisse baixinho, comigo mesmo, quando, perante um desses mármores lavados
pelas chuvas, dourados pelos sóis, eu me lembrasse vagamente da pele de seu
corpo e sentisse, talvez, uma confusa, violenta vontade de chorar.)
CONFISSÕES
DE UM EMBAIXADOR
Do fraque, da casaca e de
outras roupas de rigor lhe direi, amigo, que prefiro andar de calça e
paletó-saco; mas por isso mesmo que nunca liguei muito a roupas, pouco me
importa vestir as de gala. Elas são, para um embaixador, roupa de serviço —
"roupinha da briga", como se diz no Rio — e não honram nem desonram
mais quem a veste que o macacão ao mecânico. E por mais antipáticas e ridículas
que possam parecer ao homem do povo, que nunca as usa, têm isto de simpático e
mesmo democrático: são uniformes. Igualam as pessoas que as vestem; nada se
parece mais a um homem de smoking que outro homem de smoking; o do rico não é
muito melhor que o do pobre, e todos se confundem em qualquer reunião. Esse
caráter igualitário (dentro de um certo meio) das roupas de homem contrasta com
os trajes femininos; em toda festa as mulheres mais ricas ou de mais bom gosto
aparecem com vestidos mais caros ou mais elegantes que os das outras; há uma
competição permanente, que os cronistas mundanos acirram e os comentários das
amigas e inimigas movimentam. De chapéus femininos, nem se fala, tal a
variedade e tão tênues os limites entre o sublime e o ridículo; pois eu comprei
uma cartola no Chiado, e ela é perfeitamente igual a qualquer outra cartola de Marrocos,
e deste mundo.
Do
protocolo, direi que este mundo tem suas regras, como todo convento as tem.
Antigamente, quando se encontravam chefes de Estado ou embaixadores de vários
países, cada um se achava com mais direitos que o outro, e merecedor de mais
honrarias. Isso dava motivo a muitas disputas vãs.
DOMINGO:
FUTEBOL EM CASABLANCA
A essa altura meu amigo
chileno já estava de pé, aos brados, dizendo que era por causa dessa burrice
que os franceses tinham sido postos para fora do Marrocos, da Indochina, como
agora vão ter de sair da Argélia... Houve gritos vários, protestos e aplausos
que a taquigrafia não registrou, e a certa altura o chileno se lembrou de dizer
que aquele cavalheiro ali presente — eu — era Embaixador do Brasil e merecia
ser tratado com respeito, pois bárbaro é o povo que trata mal diplomatas etc.
etc.
Surgiu uma questão sobre
quem jogava e não jogava futebol, eu querendo acalmar o chileno, o amigo do
joli fazendo provocações, a senhora dando gritinhos enquanto que o homem que
estava a seu lado intentava silenciá-la, afinal gritei — que futebol, isso nós,
brasileiros, nós o jogamos, nós o jogamos, ah, seguramente, isso nós fazemos!
Gritei isso em francês, com gestos tão violentos em direção ao 70/1 que era
evidente que éramos também campeões de tapa na cara; parti meio às cegas para cima
do homem, aí foi o chileno que me agarrou e me aplacou, a mim, pai de Pele, tio
de Garrincha, primo de Didi, irmão de Nílton Santos, defendendo a honra da
minha família de plantadores de caoutchouc... Bem, a moral da história é que
embaixador não deve ir a jogo de futebol, esta é que é a verdade.
VOCÊ
VENDO NÃO ACREDITA
QUEM viaja tem alucinações.
Posso oferecer o testemunho de vários brasileiros que ouviram comigo, em um
restaurante de Tânger, uma canção árabe dizer, entre muitas coisas
incompreensíveis, que "o nosso Tancredo Neves nasceu em São João dei
Rei". Alguns a princípio não acreditaram; mas fizemos repetir a canção
duas, três vezes (bastava pedir "a do Tancredo Neves") e era
indubitavelmente aquilo...
Perto de Tetuan paramos uma
tarde para atender ao pedido de socorro de um automobilista enguiçado. O carro
era um Renault velho, com placa de Ujda. Enquanto meu chofer ia examinar o
motor do carro com um dos viajantes, eu me aproximei de outro. Num relance vi de
quem se tratava — e cuidei imediatamente de disfarçar, pois havia mais dois
passageiros no carro. Ele sem dúvida também me reconheceu, pois tratou de
desviar o olhar e se pôs a conversar nervosamente em árabe com um velho que
estava a seu lado. Mil coisas me vieram à mente para explicar aquela presença
do General Cordeiro de Faria, antigo comandante da Artilharia da FEB, em carro
com a placa de Ujda, da fronteira da Argélia conflagrada. Segredo
militar-político-diplomático de alto tope, como dizem os americanos.
LEMBRANÇA
DO COMPADRE JOAQUIM
Filho
de pobre é feito criação de peru, perde-se muito. Anos depois eu soube que
tinha dado uma peste na casa do compadre Joaquim Capixaba e ele perdera vários
filhos, inclusive o maiorzinho que já ajudava; mas meu afilhado João, esse se
salvara. E o Joaquim dizia a diversas pessoas: — Devoção forte é essa do
compadre Rubes em São João! E o Santo reconhece!
MAIS
UMA DESILUSÃO AMOROSA
Para
falar com franqueza foram tantos os textos que me empurraram durante o curso,
que esses mesmos versos tão citados eu não poderia garantir se eram de Le Cid
ou de outra peça de Corneille — ou, quem sabe, de Racine... Mas a lembrança
vital que eu guardei de Le Cid era aquela, de muitas "bolas de ouro"
exprimindo sentimentos fidalgos de renúncia, de sacrifício, além de uma
idealização de Chimène que, por sinal, se parecia muito com certa moça que
morava do outro lado do Itapemirim...
A
esta altura, atrás de mim, muitos espectadores riram, como se estivessem
assistindo a uma farsa. Mas eu não ri. Eu estava triste, decepcionado, vazio
por dentro. Muitas mulheres já me enganaram ou desiludiram nesta vida; mas no
fundo de meu coração cachoeirense de treze anos eu continuava secretamente a
adorar Chimène... E era uma boa bisca.
À
SOBREVIVÊNCIA DO ELEFANTE
HOUVE
uma época em que se achava que o elefante ia acabar, devido à matança dos
caçadores de safáris e mercadores de marfim; um bicho daqueles, que dá uma só
cria de três em três anos, não poderia agüentar; e até houve um francês que
escreveu um romance bonito, Raízes do Céu, Prêmio Goncourt de anos atrás, cujo
personagem principal era um filósofo amigo dos elefantes que matava homens que caçavam
elefantes.
Os cientistas dizem que já
houve 352 espécies de elefantes, das quais só restam duas; mesmo sem a ruindade
e a cobiça do homem, aquele grande bicho não teria grande chance de sobreviver;
é um animal, que precisa comer demais para sustentar o corpo desconforme, além
do que é um bicho errado, que mal digere a metade do que come e é muito sujeito
a doenças, inclusive diabete, antraz, caxumba, gripe comum; ainda bem que
elefante não usa lenço, porque não haveria lençol que chegasse. Entretanto, o
futuro do elefante hoje em dia" está garantido; o elefante é hoje um bom
negócio e até, quem sabe, poderíamos importar elefantes.
Naquele
dia vi, entre muitos outros bichos, centenas de elefantes; à noite sonhei com
elefantes e, como não há jogo do bicho em Uganda, no dia seguinte não joguei no
elefante, mas comprei dois livros sobre elefantes. Há muitos livros escritos
sobre essa mimosa criatura, que desde a antiguidade fascina a imaginação humana
e muito tem trabalhado em guerras, circos e engenharia civil; mas agora ele
está dando dinheiro é no ramo do turismo, como explicarei amanhã.
AINDA
SOBRE ELEFANTES
O PRINCIPAL defeito do
elefante é, como eu ia dizendo, o de certos políticos brasileiros: é um bicho
interessante, mas come demais. Gosta de capim novo, de brotos e frutas
silvestres, mas gosta principalmente de cana-de-açúcar, manga, banana, tudo que
é plantação do homem, e devora uma roça inteira em uma noite. Passa 16 horas
por dia comendo. Tem um apetite latifundiário, incompatível com qualquer tipo
de reforma agrária. Para o Nordeste não serve.
Mas
para a Amazônia — me perguntava um amigo português em Quênia — vocês têm lá
tanto espaço, por que não importam elefantes? O governo aqui está cobrando 75
libras pela licença para matar um elefante, se o sujeito quiser matar um
segundo, este lhe custará 100 libras. E só se pode matar macho, e em certos
lugares em que o número deles cresceu demais para incomodar a lavoura; mas a
renda maior do turismo está nas divisas trazidas pelas pessoas que vêm visitar
os parques nacionais, só para ver e fotografar elefantes e outros bichos em liberdade.
Calcula-se que só em Uganda existem hoje uns 11 mil elefantes, no Congo haverá
uns 100 mil. Hoje os governos não
somente protegem o elefante, como também impedem que ele, sob essa proteção, se
propague demasiado, invadindo as terras de lavoura. E veja aí nessas lojas
quanta coisa de marfim se faz, que bonitas botinas de pele de orelha de
elefante, bolsas de elefante; note que ainda se come muito elefante, carne seca
de elefante é muito boa, acho que daria certo em feijoada.
não
é à toa que ele é parente do peixe-boi — e também gosta muito de migrar, às
vezes sem motivo aparente, em poucos anos andaria pelo Acre. É verdade que dá leite (elefantinho só
desmama depois de dois anos) e até que neste ponto a elefanta é bem mais
elegante que a vaca, pois as mamas ficam entre os membros dianteiros, como
acontece com as mais distintas damas da nossa sociedade.
PARECE
QUE ERRARAM A CONTA
Sei que não adianta
reclamar, mas acho que fui roubado. Contaram-me dez anos a mais... Naturalmente
somaram tudo, tudo, inclusive o tempo que passei, vamos dizer, perdendo tempo.
Por exemplo: andando atrás de mulher que não queria saber de mim. Isso não
devia valer. Que me marcassem agora 45 anos vá lá. Cinqüenta, francamente, acho
um pouco demais, e um pouco demasiado de repente. Parece que não há remédio
senão aceitar. Aceito resmungando, como quem paga, de má vontade, uma conta de
bar que está achando exagerada.
PESSOAS
QUE ACONTECEM
Uma
vez, em Cachoeira, João Madureira e eu, ainda rapazolas, saímos a passarinhar.
Creio que ele levava um pio de inhambu ou de macuco. Eu levava apenas minha
espingarda; sou homem de ouvido ruim, tanto que contam que uma vez que piei um
macuco, meia hora depois apareceu o "soberbo galináceo" (é assim que
se diz no disco de vozes de aves do Brasil feito pela família Coelho,
fabricante de pios de caça na ilha da Luz, e que vocês não encontram em nenhuma
casa de discos, mas em casas de armas) e
quando eu levava a arma a cara o macuco levantou uma pata e disse: "Não
atire não, moço, eu só vim ver quem é que estava piando macuco tão mal."
ALGUMAS
PONDERAÇÕES CATABÓLICAS
Um
médico meu amigo aconselha para o verão não apenas mantimentos mas também
literatura catabólica. Evitar grandes versos de Schmidt ou odes de Vinicius,
consumir poemas magros de João Cabral ou Carlos Drummond de Andrade. Tirar da
parede quadros de Di Cavalcanti, reproduções de Rubens ou Renoir: engordam horrorosamente.
Não ouvir bossa-nova: tem muito açúcar, é melhor traçar saladas de cool jazz em
estado natural.
Esculturas
de Bruno Giorgi são mais recomendáveis que as de Alfredo Ceschiatti. Pintor
francês atual, o mais catabólico é mesmo Buffet. Ouvir acordeão engorda tanto
como romance de José de Alencar e Jorge Amado; leiam Machado de Assis e
Graciliano Ramos, os catabólicos da prosa brasileira.
Crônica,
se gostar, que seja do gênero meio aflito, como José Carlos Oliveira; Pongetti,
Braga e Elsie Lessa engordam um pouco; cuidado com os salgadinhos e frituras do
Stanislaw Ponte Preta! Entrevista de candidato sempre contém farináceos... O
melhor é não ler nada. Não ler, não amar, não comer; morrer, dormir, sonhar
talvez, quem sabe...
OS
CARNAVAIS DE ANTIGAMENTE
O
moço de família que tinha a coragem suprema de fazer essa exibição me parecia
um herói do vício. Moças recusavam-se a dançar com ele na noite seguinte, no
baile dos Caçadores; era, durante algum tempo, um intocável, um imundo. Mas os
homens mais velhos comentavam aquilo sorrindo, com simpatia : rapaziadas...
EM
ROMA, DURANTE A GUERRA
Contarei
hoje apenas uma aventura minha de retaguarda. Um dia, num bar de Roma, havia
uma elegante senhora loura que tinha cigarro mas não tinhas fósforos. Um
galante correspondente de guerra que
estava na mesa ao lado sacou de seu isqueiro e pediu-lhe licença para acender
seu cigarro. Depois, com muita delicadeza e timidez, disse que havia chegado
aquele dia em Roma, e não conhecia ninguém; queria saber se ela não levaria a
mal sua ousadia de convidá-la para sua mesa.
Assim eu (que outro não era, como já adivinhastes, o galante correspondente)
travei relações com uma espiã, pois é evidente que mulher loura com cigarro e
sem fósforo só pode ser espiã. Ela falava um italiano perfeito, o que também
faz parte de seu ofício; mas apesar disso perguntei-lhe se era italiana. Disse
que era e não era. Bonita resposta, pensei eu, reparando em seus olhos de um
azul cinzento, e brinquei: "não vai me dizer que é da Abissínia!" Ela
riu; era de Trieste; confessei-lhe que eu era de Cachoeiro de Itapemirim, ela
repetiu o nome de minha cidade com tanta graça que me apaixonei.
Imediatamente aproximou-se
de mim um major inglês de grandes bigodes e muito polidamente me pediu que o
procurasse mais tarde em seu apartamento no mesmo hotel. Adiantou que
trabalhava na contra-espionagem, e que a senhora que estava em minha companhia
era suspeita; mas que eu não a deixasse perceber que fora informado disso.
No
dia seguinte o major me esclareceu: a minha amiga era tcheca de raça alemã,
filha de um industrial ligado aos nazistas. Prometi ao major transmitir-lhe
qualquer pergunta ou pedido suspeito que ela me fizesse; mas eu devia voltar
logo para a linha de frente e a minha encantadora mata-harizinha não havia meio
de me tentar extorquir o segredo da futura bomba atômica nem o esquema da próxima
ofensiva aliada.
A
MULHER E SEU PASSADO
ELA
conta a história de uma freira que a atormentava no internato, em seu tempo de
menina; de um homem que a fez viver longamente entre o desespero e o tédio, a
revolta e a humilhação. E fica meio magoada porque a tudo eu sorrio, porque eu
não pareço participar do sentimento com que ela fala contra essa gente que
passou. Afinal ela também sorri: "Você é meu amigo ou amigo da onça?"
O
PAÍS DE MINHA NOIVA
Mas
não há tempo de guerra no país de minha noiva. Há tempo de jabuticaba, de
açucena, de jogar bilboquê e de ovas de tainha. Há muitos tempos. O tempo se
divide em alegres tempos, e flui suave e cordial. Às vezes se detém um pouco,
para que eu possa mirar a minha noiva. Quando a minha noiva me mira a mim, o
Tempo se imobiliza inteiramente. Só eu estremeço. "Amo tanto e estremeço
esta terra!"
CAPÍTULO
II — DA TERRA
No
país de minha noiva não há trabalhadores rurais, nem mesmo camponeses. Há
camponios. Eles não se juntam em ligas nem sindicatos, mas em grupos corais, à
hora do Ângelus. Ninguém pensa em dividir a terra, mas em laborar e colher.
Art.
1º. A terra é indivisível.
Art.
2º. A terra é toda de Deus.
Art.
3º. No uso das praias e dos relvados é assegurada a primazia dos adolescentes,
para seus jogos e bailados.
§
1º. As ninfas são locadas nos bosques, à razão de treze por alqueire. São os
chamados grupos de treze.
No
país de minha noiva não há prisões; apenas corações cativos.
Mas
ainda a estes é permitida uma certa leviandade. A alegria de minha noiva,
quando descíamos no elevador, me encheu de sol meu coração. Mas agora não há
mais elevadores, pois não é permitida a construção de edifícios. Tampouco a de
favelas. As pessoas habitam choupanas ou mansões, segundo a idade, o estado de
espírito e os sentimentos religiosos. As mansões são antigas e as choupanas são
felizes. A minha noiva é jucunda e bela; assim é o seu país.
"ENQUÊTE"
PELO TELEFONE
A REDATORA de um jornal me
telefona e pede minha opinião sobre a nova moda dos seios nus. Esse tipo de
enquetinha pelo telefone me aflige, pois assim de momento jamais me ocorre uma
resposta passavelmente inteligente.
Respondo com evasivas, mas
ela insiste. Acho bonito? Acho imoral?
— Ah, minha filha, só vendo.
— Só vendo, como?
— Você põe o tal monoquíni e
venha aqui em casa. Sem ver eu não posso dar uma opinião.
Ela me chama de
engraçadinho, muito zangada, o que me consterna um pouco. Afinal de contas é
uma colega de jornalismo, uma jovem que está trabalhando, ganhando sua vida, e
eu respeito muito isso, não gosto de destratar ninguém. Peço-lhe desculpas, se
caso minha resposta a chocou. Ela faz uma pergunta imprevista:
— O senhor deixaria sua
filha usar essa moda?
— Deixaria... isto é, não
sei...
Um silêncio. Ela parece
hesitar um pouco em fazer outra pergunta, e afinal se decide:
— Que idade tem sua filha?
Com delicadeza protesto que
não desejo dar uma entrevista sobre minha família. Não gostaria de ver filha
minha envolvida nessa coisa de entrevista de jornal; dá uma fofoca...
— Mas o senhor não pode me
dizer que idade tem sua filha?
— Não, não posso. Para lhe
falar com franqueza, eu não tenho, nunca tive uma filha. É um ponto de
melancolia em minha vida. Ter uma filha! Como eu gostaria de minha filha!
— Mas então como é que o
senhor disse que deixava?
— Que deixava o quê?
— Ora, sua filha usar a moda
nova! O senhor está brincando? Se não quer dar entrevista, é uma coisa, mas se
o senhor quer brincar comigo não acho graça nenhuma, não precisa inventar que
tem uma filha...
— Foi você quem falou de
minha filha, não fui eu. Acredite que não estou brincando, estou falando sério:
tenho mesmo uma certa tristeza em não ter tido uma filha. Agora é tarde, mesmo
porque para ter uma filha seria preciso ter mulher; isso complica muito as
coisas, não acha? Esse negócio de ter mulher é fogo. Enfim, o melhor é a gente se
conformar; quem não tem filha, o jeito é gostar das filhas dos outros... Você é
filha de quem?
— Eu? O que é que o senhor
tem com isso? Quer saber de uma coisa? Eu até aprecio as coisas que o senhor
escreve, nunca pensei que tivesse uma conversa tão cretina. Fico novamente
consternado, e procuro me desculpar:
— Bem, eu não quero insinuar
que você seja filha de ninguém.
Pelo amor de Deus, não me
leve a mal, mas esse negócio de entrevistinha pelo telefone não dá certo mesmo,
minha filha...
— Não me chame de minha
filha!
— Desculpe, é uma maneira de
dizer, eu não quero insinuar nada, me acredite. E olhe: se você quiser usar a
tal moda, não se preocupe comigo, está ouvindo? Eu já tenho visto tanta coisa
neste mundo que, francamente...
Mas corto a frase no meio,
porque ela desligou.
ASSIM
AMA O COLIBRI
Sabe-se que entre os
passarinhos o macho é sempre muito mais bonito que a fêmea; até em aves de
quintal, como o galo e o peru, isso é fácil de ver, sem falar no pavão, esse
show imperial de cores feitas para seduzir a feiota da pavoa. Quando sente
palpitar seu coração de amor, o colibri cuida de cativar a fêmea, e então dá
início à Parada Nupcial, que Ruschi divide em cinco fases.
MESTRE
AURÉLIO NTRE AS PALAVRAS
Tive
algumas desilusões, confesso; sempre pensei que trintanário fosse um sujeito
muito importante, talvez da corte papal, e mestre Aurélio afirma que é apenas o
criado que vai ao lado do cocheiro na boléia do carro, e que abre a portinhola,
faz recados, etc. Enfim, o que nos tempos modernos, em Pernambuco, se chama
"calunga de caminhão". E sicofanta, que eu julgava um alto sacerdote,
é apenas um velhaco. Cuidado, portanto, com os trintanários sicofantas!
A
MOÇA DO CARNAVAL
Já
conheci muita moça bonita, de ar sério e recatado, que passa o ano inteiro
cultivando o mito da própria altivez e no carnaval se veste de prata, de
escrava ou de havaiana e se esbalda, sorrindo e rebolando para todos, cantando
as letras maliciosas, saltando durante horas em volta do salão, em cima da cadeira
ou da mesa.
A
TRAIÇÃO DAS ELEGANTES
Que
aconteceu? Ninguém pode duvidar da elegância dessas damas, mesmo porque muitas
não fazem outra coisa a não ser isto: ser elegantes. Elas são parte do
patrimônio emocional e estético da Nação, são respeitadas, admiradas,
invejadas, adoradas desde os tempos de Sombra; vivem em nichos de altares
invisíveis, movem-se em passarelas de supremo prestígio mundano — e subitamente,
oh! ai! ui! Um misterioso Satanás as precipita no inferno imóvel da paspalhice
e do tédio, e as prende ali, com seus sorrisos parados, seus olhos fixos a
fitar o nada, estupidamente o nada — quase todas, meu Deus, tão
"shangai", tão "shangai" que nos inspiram uma certa
vergonha — o Itamarati devia proibir a exportação desse número da revista para
que não se riam demasiado de nós lá fora!
Direis
que essa derrota das "Mais Elegantes" não importa... Importa! As
moças pobres e remediadas, a normalista, a filha do coronel do Exército que
mora no Grajaú, a funcionária da coletoria estadual de Miracema, a noiva do
eletricista — todas aprenderam a se mirar nessas deusas, a suspirar
invejando-as, mas admirando-as; era o charme dessas senhoras, suas festas, suas
viagens, suas legendas douradas de luxo que romantizavam a riqueza e o desnível
social; eram aves de luxo que enobreciam com sua graça a injustiça fundamental
da sociedade burguesa.
Elas
tinham o dever de continuar maravilhosas, imarcescíveis, magníficas. É possível
que pessoalmente assim continuem; mas houve aquele momento em que um vento
escarninho as desfigurou em plebéias enfeitadas, em caricaturas de si mesmas,
espaventosas e frias.
VALENTE
MENINA!
Deitei-me
na rede, sentindo dor de cabeça e um certo desgosto por mim mesmo. Eu poderia
ser pai dessa moça — e me pergunto o que sentiria, como pai, se soubesse de uma
aventura sua, como essa, com um homem de minha idade. Tolice! Os pais nunca
sabem nada, e quando sabem não compreendem; estão perto e longe demais para entender.
Ele, esse pai de quem ela falava tanto, não acreditaria se a visse entrar pela
primeira vez em minha casa, como entrou, com sua bolsa a tiracolo, o passo leve
e o riso nervoso.

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