Protesto não se confunde apenas com greve
Por: Júlio César Anjos
Certa vez, uma empresa que fabrica produtos perecíveis no Japão resolveu fazer um
protesto. Diante de um cenário desfavorável, os trabalhadores nipônicos
reuniram-se diante das causas que os incomodavam e resolveram discutir sobre a
situação. A maioria queria fazer greve, paralisação geral, reivindicação
plausível e justificada, pois os trabalhadores buscavam valorização remunerada.
Mas o movimento sindical não fez a greve, fez outro protesto mais inteligente.
Após a reunião concluída, os operários voltaram aos postos de trabalho e
começaram a produzir. Mas, ao contrario do que se presumia, a intensidade de
trabalho era maior, os trabalhadores resolveram pedir extras (o trabalhador que
fazia 8 horas com má vontade, agora se fazia 10 horas de trabalho motivado e
feliz), a produtividade aumentou, e durante dois dias o empresário ficou muito
feliz, tudo ocorreu bem, sentiu-se seguro por entender que as coisas
resolveram-se sozinhas. Mas os dias foram passando, a produtividade aumentando,
e nada do laborioso operário parar de produzir. Com isso, os produtos
perecíveis começaram a entupir os estoques, ficaram fora dos armazéns, a
quantia de produto era enorme para escoar em poucos dias, o que ocasionou
aumento de logística. Em poucos dias o empresário entendeu o que estava
acontecendo. Os japoneses exibiram o valor profissional mostrando serviço, mas
com o ônus do empresário perder todos os insumos e matérias primas, alem do
aumento de custo de logística, armazém e etc, a fim de mostrar que os
trabalhadores estão unidos e o aumento do salário se justifica pelo resultado
obtido da produção. O empresário tomou um prejuízo maior do que se tivesse
reajustado os salários como os trabalhadores queriam. Eis que daquele dia em
diante o empresário entendeu que não há só greve como protesto, há outras
fórmulas de conseguir o que se quer sem precisar da paralisação geral.
As pessoas estão condicionadas a entender que somente a greve é protesto,
apagando qualquer outra ferramenta de reivindicação que seja até mais eficiente
que a própria paralisação. A engenharia social já subjugou a alma do trabalhador.
A reação do empresário destaca-se somente pelo medo da greve (e custos
ocasionados pela situação), e os movimentos sindicais até sabem das outras
ferramentas de protesto, mas como estão aparelhados com empresários e/ou
governos, utilizam somente de greve ou uma reunião ao ar livre para
satisfazer o ego ferido do trabalhador, e não causar uma repreensão grande ao
empresário. Os diferentes protestos não são aplicados hoje por causa dos
acordos obscuros entre sindicatos patronais e dos trabalhadores.
As universidades Federais, por exemplo, estão aparelhadas com o próprio
governo. Sendo assim, o único protesto acordado foi a paralisação, já que para
o governo que aí está, faculdade parada significa menos custo de água, luz,
telefone, manutenção e salário do próprio professor. Um protesto, por exemplo,
que poderia surtir efeito imediato ao governo atual seria implementar doutrinas
liberais, a fim de clarear as idéias dos alunos. Vejam só, o governo atual não
gosta do ideal libertário e o simples ensinamento dos conceitos libertários
seriam mais eficazes do que a paralisação em si. Mas infelizmente até os professores sabem
disso e aceitam a paralisação per si. O resultado a longo prazo será de mais
professores mal remunerados e perda do glamour das universidades federais. Para
quem acha impossível, basta verificar que nos anos 60 e 70, as escolas públicas
eram melhores que as particulares. “Quem não conhece a própria história está
condenado a repeti-la” (Guevara).
A montadora também não tem medo da paralisação, tem medo da operação
tartaruga, do “finge que paga e finge que trabalha”. E o temor da improdutividade
faz surgir o tal do PLR (Participação de Lucros dos resultados), o suquinho
Gummy dos proletários. O rito é sempre o mesmo, ao chegar a hora de impulsionar
a produtividade, o sindicato é chamado para fazer uma paralisaçãozinha para
mostrar aos pelegos que está “defendendo a causa”. Após isso ocorrer, a empresa
mostra a quantidade de suquinho Gummy, os proletários quase que escravizados
esticam o olho, e cria-se do nada um fator motivador para trabalhar por um
período de tempo somente para enriquecer o capitalista. E o empregado jura de
pé junto que o sindicato existe como se fosse um herói, vai entender esse povo.
Cita-se somente esses dois
exemplos, um da esfera pública outra da iniciativa privada, mas há várias outras
formas de protestos que são diferentes uma das outras. Greve é somente uma
ferramenta de várias outras possíveis. O IBGE poderia divulgar os índices
verdadeiros ao invés de fazer a greve; a polícia federal poderia investigar o
governo corrupto do PT ao invés da greve; O funcionário insatisfeito pode até
pedir demissão como protesto ao invés de fazer greve. Mas o fato é que a greve é
boa tanto para o empregado quanto para o sindicato, além de ser caracterizado
como umas férias para os proletários. Então fica por aí mesmo, no “finge que me
engana”.
Há também outras formas mais brandas e funcionais de protestar, como, por
exemplo, colar adesivos nas costa com a palavra escravo, no período em que o
cliente forte da empresa visitar as instalações das fábricas. O sindicato, que
recebe muitos bons proventos por sinal, poderia investir em propaganda em mídia
de massa, a fim de externalizar a situação para a sociedade. Enfim, há uma
imensa gama de protestos muito mais eficientes do que as férias sazonais da
greve.
Mas por enquanto fica que a greve é a única
ferramenta de protesto que existe, condicionaram o povo a acreditar nisso, então
verdade é.
O trabalho Protesto não se confunde apenas com greve de Júlio César Anjos foi licenciado com uma Licença Creative Commons - Atribuição - NãoComercial - SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em http://efeitoorloff.blogspot.com.br.
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